Terá valido a pena a persistência? – release


O destino de uma mulher é a teimosia – novo livro da pesquisadora Ana Elisa Ribeiro, O ar de uma teimosia: trilhas da publicação em Clarice Lispector, Lúcia Machado de Almeida e Henriqueta Lisboa, traz reflexões sobre as dificuldades de legitimação da escrita de autoria feminina




Clarice Lispector, Lúcia Machado de Almeida, Henriqueta Lisboa. Três mulheres que, apesar de já inseridas nas rodas literárias e intelectuais, até pelo estrato social a que pertenciam, ainda sofriam com estigmas que toda escritora precisa enfrentar (algumas mais, outras menos), e talvez mais criticamente no século passado.


É preciso acreditar, duas vezes, com "o ar de uma teimosia", na própria escrita antes de lançá-la ao mundo. Quando tratamos da literatura de mulheres, a coragem de publicar é só o primeiro passo em direção à longa e tortuosa trilha da consolidação como escritora. Das três, sem dúvidas, Clarice Lispector foi aquela cujo nome tornou-se mais conhecido.


Lúcia Machado de Almeida, pioneira e best-seller do segmento infantojuvenil, incontestável referência com milhões de cópias vendidas, teve de lidar com sistemáticos apagamentos de ordem pública. Como Ana Elisa Ribeiro aponta, "ela e o marido dedicaram-se a diversas atividades culturais, que incluíram a criação do Museu do Ouro, na cidade histórica mineira de Sabará". Mesmo contribuindo ativamente, apenas seu marido foi empossado membro da Fundação de Arte de Ouro Preto, tendo, assim, o trabalho de Lúcia como agente da cultura e da memória do país sido secundarizado.


Henriqueta Lisboa, por sua vez, com muita dificuldade lutou contra o ostracismo a que tentavam relegar sua literatura e a de suas contemporâneas. Henriqueta era uma verdadeira ativista da palavra, não "somente" por ter sido poeta, crítica, ensaísta, tradutora e professora de literatura, mas também por ter organizado quatro importantes antologias, publicadas no início da década de 1960 e reimpressas recentemente. Sua persistência não era limitada a ter sua voz ouvida e seus escritos considerados pela grande crítica e pelos leitores, mas também incluía fazer outras mulheres ocuparem esse espaço majoritariamente gerenciado por homens. Mesmo sendo agraciada com o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, ainda em vida, seu repertório de escrita e atuação só se tornou objeto de pesquisa quarenta anos depois de sua morte. Teve sua "saída discreta pela porta dos fundos" e não viveu para ver sua persistência, enfim, reverberar, sendo hoje uma importante fonte de estudo no que diz respeito à construção da autoria de literatura brasileira feita por mulheres.


A própria divisão da obra de Ana Elisa Ribeiro, partes e capítulos, possibilita perceber que as inquietações dessas escritoras derivavam de vivências completamente diferentes, embora com questões próprias e tangenciadas pelo patriarcado. Ana Elisa ressalta a urgência de Clarice em publicar seus textos depois de finalizados, consequência – ou não – do processo quase de parir as obras, período que era demarcado nas cartas aos amigos-críticos-escritores como uma etapa de sofrimento e negação, desconfiança e necessidade de ouvir de outras bocas – bocas masculinas e talvez tão aclamadas quanto a dela – que não estava louca, que sua teimosia era vital e relevante.


Depois de desemperrar o dínamo da escrita, Clarice demonstra aversão em publicar a obra quando esta se demora demais na gaveta, à espera de uma editora e de toda a operação que envolve a publicação, ainda mais naquela época, que dependia de tecnologias mais analógicas que as que temos hoje. A escritora ressalta diversas vezes que precisa de rapidez e agilidade para que esse processo seja vivido por ela com menos rejeição e estranheza aos próprios textos. Seria esse mais um sintoma de síndrome de impostora que ronda as mulheres e suas habilidades, sobretudo no que diz respeito a tornar público o próprio trabalho, mesmo com seu nome já consolidado?

O ar de uma teimosia: trilhas da publicação em Clarice Lispector, Lúcia Machado de Almeida e Henriqueta Lisboa | Ana Elisa Ribeiro

2020

ISBN: 978-65-990969-4-5

150 p.

R$38,00

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