Um livro é uma arma – por Lais Porto

Conteúdo parcialmente publicado no blog Uma leitora negra e no Instagram @umaleitoranegra.


A ação "Um livro é uma arma" é uma iniciativa para o mês da consciência negra. A cada quinta-feira de novembro, uma produtora de conteúdo convidada intervém com resenhas e comentários acerca de obras de autoria de mulheres negras. A convidada dessa semana, que fecha a ação, é Lais Porto, do blog Uma leitora negra.


Em 2017, último ano da graduação, decidi fazer uma simples pesquisa, para mim mesma. Estava procurando conhecer cada vez mais a literatura negra, em específico, a de mulheres negras. Levei uma lista com alguns nomes de escritoras negras para saber quais obras faziam parte do acervo da Biblioteca Central, e, no resultado, encontrei onze volumes da série Cadernos Negros.



Nessa época, não conhecia a série, mas sabia quem era Esmeralda Ribeiro, organizadora cujo nome está registrado nos volumes dos CN na biblioteca. Hoje, sei que nós, soteropolitanos, temos um enorme privilégio, porque não é em qualquer biblioteca que se encontram onze volumes dos Cadernos Negros.


A primeira edição das obras foi lançada em 1978. O primeiro volume contou com a participação de oito poetas, e a cada ano, o Quilombhoje lança um volume da série, revezando entre poemas afro-brasileiros e contos afro-brasileiros. A editora já lançou 42 volumes, sendo este último o de contos afro-brasileiros.


Os volumes disponíveis para empréstimo na Biblioteca Central são volumes avulsos, doados por escritores que participam da própria série. São eles:


  • Cadernos Negros: 16 contos

  • Cadernos Negros: 17 poemas

  • Cadernos Negros: 21 poemas afro-brasileiros

  • Cadernos Negros: 22 contos afro-brasileiros

  • Cadernos Negros: 27 poemas afro-brasileiros

  • Cadernos Negros: 29 poemas afro-brasileiros

  • Cadernos Negros: 30 contos afro-brasileiros

  • Cadernos Negros: 33 poemas afro-brasileiros

  • Cadernos Negros: 38 contos afro-brasileiros

  • Cadernos Negros: os melhores contos

  • Cadernos Negros: os melhores poemas


Quando criei o blog Uma Leitora Negra, compartilhei sobre essa pesquisa pelo projeto com os seguidores. A partir desse momento, fui escrevendo resenhas desses volumes e publicando no blog. O perfil foi crescendo, e muitos escritores começaram a conversar comigo sobre os Cadernos Negros, nisso, ganhei de presente de dois escritores baianos (que escrevem nos CN) os volumes 41 e 42 da série.


Inclusive, a grande presença de escritores baianos é um dos principais motivos que me faz sempre falar sobre a série, indicar para quem quer começar a ler e estudar a literatura negra. Penso que é necessário que todos leiam e conheçam a série Cadernos Negros.


As minhas primeiras leituras dentro da literatura negra foram Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e A cor púrpura, de Alice Walker. Depois, fui para a série dos Cadernos Negros, e nela conheci muitos escritores baianos. A cada volume, vibrava ao reconhecer os rostos e os nomes de soteropolitanos. A alegria maior foi quando estava lendo o volume 39 e me deparei com o seguinte trecho:


"Um salve para todos aqueles que depositam sua confiança nos organizadores. Nesse sentido, não há como não reconhecer a força, o axé que os autores da Bahia, especialmente Salvador, têm injetado na série. A participação soteropolitana nos enche de alegria pela qualidade, pela quantidade, pela confiança, pelo carinho, e não é de hoje. Também a participação de autores de Pernambuco, do Paraná, do Rio de Janeiro, do Piauí, de Brasília, mostra o quão similar é a experiência afro em todo o país." (Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa)



No volume 22, Niyi Afolabi diz que “ler Cadernos Negros é participar do batuque dos guerreiros modernos”. Estou em plena concordância com essa fala, afinal, ler e divulgar Cadernos Negros é fortalecer o quilombo literário negro, sendo assim, compartilho aqui trechos de algumas resenhas publicadas no meu blog:



No volume 30 dos Cadernos Negros: contos afro-brasileiros, o conto "Afagos", de Elizandra Souza, apresenta uma narrativa extremante amorosa, não apenas pelo fato de relatar um relacionamento afrocentrado, mas por relatar o autoamor de uma mulher preta, como ela sofre devido ao padrão eurocêntrico, e tenta se moldar, alisando o cabelo, se enquadrando nas vestimentas e no modo de ser, mas que, em um determinado momento, consegue romper com essa manipulação embranquecedora.


Dara, a personagem, conta situações do período escolar onde foi completamente humilhada e apagada enquanto pessoa negra e, em seguida, conta como adentrou no mundo dos relacionamentos. Aqui fica nítido como Dara está presente na solidão da mulher negra e como foi estereotipada apenas como um corpo a ser usado, mas nunca ser a namorada. A melhor parte é quando ela conta como começou o relacionamento com um rapaz negro e como este lhe ajudou a se aceitar da forma que é, com a sua negritude, com a sua ancestralidade no nome e com o seu cabelo crespo.


Trecho do conto: “Na infância eu não gostava de pentear os cabelos. Não sei a razão, só lembro que minha mãe esticava bastante e tenho a impressão de que meus olhos tornaram-se meio puxados de tanto que ela escovava. Na época, era um sonho ter o cabelo levado pelo vento, mas ele vivia preso que nem pitbull. Passei a não gostar do toque, não sei, parecia sentir dor.”


No volume 16 dos Cadernos Negros: contos afro-brasileiros, o conto de Conceição Evaristo é "Duzu-Querença", que está também em seu livro Olhos d’água. No volume 30 dos Cadernos Negros também encontrei um conto que já tinha lido nesse mesmo livro, ou seja, Conceição Evaristo publicou seus contos primeiro nos Cadernos Negros, e só depois publicou seus contos em um livro só seu, como única autora.


Isso demonstra a força e a importância desse projeto do Quilombhoje. Sabemos o quão excludente é o mercado editorial, e que segue as mesmas características que sustentam a sociedade, ou seja, patriarcal, racista e classista, sendo assim, uma escritora negra se sustentar e sobreviver nesse meio é muito difícil, por isso, são necessárias estratégias como a do Quilombhoje para articulação, solidariedade e luta do povo negro, para publicação e visibilidade dos escritores e escritoras, e deleite dos leitores e leitoras negras.



© Laís Porto

No leitura do volume 29 dos Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros, aconteceu algo super engraçado: encontrei o convite de lançamento do livro, aqui, em Salvador. Tudo isso me fez refletir sobre como um livro de uma biblioteca carrega muito mais que simplesmente a história escrita nas folhas, tem traços da vida de quem já leu, que folheou tais páginas, que decidiu doar para essa instituição que possibilita o acesso a uma obra cuja importância é tão grande, mas se encontra completamente fora dos meios de circulação editorial elitista e racista.


Também pensei sobre a trajetória dos Cadernos Negros, fiquei imaginando lá na época da 29º publicação, o evento de lançamento na Casa de Angola, em Salvador, com os escritores e escritoras participando, nomes que para mim já são até familiares, pois me sinto íntima de tanto já ter lido seus poemas ou seus contos. Inclusive, nesta publicação, tem um poema de Andreia Lisboa que é uma homenagem aos 25 anos do CN:


Homenagem (Andreia Lisboa)


Um quarto de dores e desejos de tantos sóis.

Suportado por luares de persistência de todos nós,

Com o Axé e proteção de nossas Grandes Mães.


Um quarto de lua crescente e aguerrida,

Que germina a terra e engravida de esperança

Palavras mágicas, ecoantes de vozes silenciadas.


Um quarto de século de negros Poetas e Poetisas,

Rompendo com os séculos de opressão

Com sua verbosidade, garra e arte.


Um quarto de século de Cadernos Negros

Fonte viva das tessituras da nossa memória,

Contemplando e registrando nossa cultura ancestral.


*


No volume 17 dos Cadernos Negros: poemas, na folha anterior ao sumário, em negrito: “1995: três séculos depois, Palmares ainda vive!”. Na resenha que publiquei em 2018, acrescentei: "2018: estamos combatentes e Palmares resiste!" Hoje, em 2020, digo: "Palmares sempre existirá, pois é o nosso início, meio e início".


No volume 27 dos Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros, a sensação que tive ao ler cada poema foi que todos os escritores me diziam: “Menina, olhe pra trás, olhe pra trás!”, mas era um "olhar pra trás" de modo que eu pudesse reconhecer os meus ancestrais, os que vieram antes, os que deixaram sua revolução marcada na história e que hoje são os exemplos, era um "olhar pra trás" para que eu pudesse me reconhecer nas mulheres e homens que construíram o caminho que tenho percorrido.



No volume 33 dos Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros, Cristiane Sobral muito fala sobre os desamores da mulher negra. Vale ressaltar que quando me refiro à solidão da mulher negra não digo apenas sobre a parte amorosa, mas todas as áreas da vida; sobre se sentir só no que se refere às amizades, no meio familiar, no ambiente de trabalho. A área amorosa é a que mais chama a atenção, porque vivemos em uma sociedade que idealiza um relacionamento romântico e nos ensina que só podemos ser felizes se estivermos com algum homem.


ILUSÃO DE ÓTICA (Cristiane Sobral)


Eu queria que você pudesse

entender minha negritude

com os reflexos do mito da democracia racial

provocando lágrimas em seus olhos


Diante de outro ponto de vista

talvez você pudesse admitir

a sua visão distorcida

as suas opções estéticas equivocadas

os seus modelos de beleza programados pela televisão


Eu queria que você compreendesse

a pele negra não é uma fantasia para o desfile do carnaval

não é uma capa para encobrir identidades maltratadas

a pele negra não é mais quente,

nem mais forte, muito menos exótica


Eu queria que você pudesse

enxergar a minha humanidade

muito além da minha melanina

além dos meus quadris


Eu queria que você pudesse ir além do seu desejo

que pudesse enxergar o meu coração

mas talvez eu não estivesse enxergando muito bem

porque hoje compreendi o quanto

o meu amor estava cego por detrás dos meus óculos românticos


*


No volume 21 dos Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros, encontrei os poemas de Conceição Evaristo. Essa série é, de fato, um prato cheio para todos os admiradores dessa grande escritora.


Todas as manhãs (Conceição Evaristo)


Todas as manhãs acoito sonhos

E acalento entre a unha e a carne

Uma agudíssima dor.


Todas as manhãs tenho os punhos

Sangrando e dormentes

Tal é a minha lida

Cavando, cavando torrões de terra,

Até lá, onde os homens enterram

A esperança roubada de outros homens.


Todas as manhãs junto ao nascente dia

Ouço a minha voz-banzo,

Âncora dos navios de nossa memória.

E acredito, acredito sim

Que os nossos sonhos protegidos

Pelos lençóis da noite

Ao se abrirem um a um

No varal de um novo tempo

Escorrem as nossas lágrimas

Fertilizando toda a terra

Onde negras sementes resistem

Reamanhecendo esperanças em nós.


*


Miriam Alves em Literafro: o portal da literatura afro-brasileira

Neste mesmo volume, temos Miriam Alves com seus poemas que caminham por todo o espaço que lhe é dado na página, uma estética poética própria da escritora, a sua marca registrada.



Olhos ossos (Miriam Alves)


Quando no silêncio

me resguardo

os meus olhos envelhecem

meus ossos curvam-se a vontades alheias

Pelos gritos guardados

velados


dia

após

dias


sinto a precocidade da velhice.


*


Cadernos Negros é sobre tudo isso e muito mais, é a maior resistência literária negra que conheço, é a consagração de que nós podemos escrever, produzir, publicar e ler os nossos, é o quilombo literário ancestral que fomenta o futuro, semeando, resistindo, se fazendo presente, incomodando, refletindo e vencendo em muitas batalhas.


Termino agradecendo o convite da Macabéa Edições e espero muito ter despertado o interesse em você, leitor e leitora, de conhecer a série Cadernos Negros.


Vidas negras importam e leiam Cadernos Negros! Confira também: Cadernos Negros 40 anos



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Lais Porto mora em Salvador/BA, é capricorniana, fonoaudióloga, pós-graduada em Linguagem, membra do coletivo vidas negras com deficiência importam, idealizadora do blog Uma Leitora Negra (no Instagram, @umaleitoranegra), onde fala exclusivamente sobre literatura negra, dando ênfase na produção literária baiana.

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