Aline Nobre: três poemas de temor



Colagem de Aline Nobre

memórias


memória visual

o vizinho entrando correndo pela sala da casa


memória auditiva

gritos de desespero ecoando por toda a rua


memória olfativa

o café não coado que estava no fogo e que ninguém bebeu


memória tátil

o peso das lágrimas escorrendo pelo rosto e molhando a camiseta


memória gustativa

o gosto de sangue na boca como se fosse eu com duas balas no peito



é assim a memória

de perder um dos seus

pelas mãos avassaladoras da violência e do ódio




perigo


quando estou com a mulher que amo

atravesso ruas como imigrantes clandestinos atravessam fronteiras

vou à exposições de museus como quem planeja roubar um portinari legítimo e estar prestes a ser descoberto

frequento bares e me sinto como um contrabandista com mil olhos de desconfiança ao meu redor

eu a beijo em público e me sinto como quem pela primeira vez no mundo fez topless na avenida e a polícia está prestes a chegar


quando estou com a mulher que amo

tudo me parece estranhamente bom e perigoso


porque estou com a mulher que amo

e porque sou mulher também





papel social


as vezes bate um medo danado


de se ser quem se é

e ser mal interpretada


de dizer o que se quer

e ser mal interpretada


de andar como se almeja

e ser mal interpretada


de beijar a quem deseja

e ser mal interpretada


de gozar sem um parceiro

e ser mal interpretada


de sorrir o dia inteiro

e ser mal interpretada


de correr sem direção

e ser mal interpretada


de voltar na contra-mão

e ser mal interpretada


de dormir completa e nua

e ser mal interpretada


de ser minha e não ser tua

e ser mal interpretada


as vezes bate um medo danado

de ter nascido mulher





_

Aline Silva Nobre é Cearense, Engenheira Sanitarista e Ambiental e Poeta. Desenvolve trabalhos na área de Meio Ambiente em municípios do Sertão Central Cearense. É autora do livro Mulher-Contestada (Urutau, 2021) que aborda a temática do ser mulher e amar mulheres. Publicou textos em antologias, blogs e jornais. A maior parte de suas obras foi editada de forma independente por meio de zines. Tem se aventurado nas colagens manuais e digitais e descobrindo uma forma além-palavra de se expressar. E, dizem as outras, sorri enquanto dorme.

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