Três poemas de Priscila Branco

Atualizado: Fev 26


© Any Lane



tenho vontade de comer maçã


quanto mais vontade

mais história

escorrendo pelas frestas


canhões ao longe

e bruxas enforcadas


tenho vontade de comer maçã


há uma árvore em meu quintal

não tenho a chave de casa

nem posso pintar paisagens


tenho vontade de comer maçã


tacar fogo no paraíso

desembrulhar deus de cabeça pra baixo

pegar em meus seios nus


tenho vontade de comer maçã


pego

descasco


como


depois vomito os restos em sua louça lavada.



*



quase chegando

aos trinta

quando chegava

aos vinte

pensava que nenhum prédio

era alto demais para minha dor


quando sentada na gangorra

do abismo

pensava escutar a voz

de tudo

a voz da vida

rosnando segredos


era o ruído da morte

me avisando chega

me pedindo fica

um pouco mais

há outras pracinhas

para passear

antes de ir.



*



bolo de aipim com café

devia ser o centro da vida

minha vó avisou

ninguém quis


escutar


minha vó

que tinha cheiro de café

minha outra vó

que tinha o mesmo


cheiro


minha vó

que se apoiava na piscina

e a outra

que esquecia o passado


todo


minha vó

que tinha a mão do tamanho

da minha

vó que era tão cansada

e cheia de coisas


engavetadas


que saudade, meu deus!

que coisa descontrolada

bolo de aipim deixa a gente

louca e tonta

que nem memória

guardada numa boia


a flutuar no mar.



_

Priscila Branco é poeta e escritora, mestre em literatura brasileira e pesquisadora de poesia contemporânea escrita por mulheres, editora da revista toró e bebedora compulsiva de café. Também faz parte do NIELM - UFRJ (Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura) e do grupo de pesquisa Mulheres na Edição (CEFET - MG). Seu primeiro livro de poemas (primeiro a ser divulgado), açúcar, está para nascer em breve.

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