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re.gis.tro – poesia



Lygia Pape ©️

re.gis.tro

substantivo masculino no dicionário

domínio patriarcal e branco na história

prática feminina no planeta


  1. certidões civis.


de nascimento, casamento, união estável, óbito,

com nome ou não retificado.

de antecedentes criminais, regularidade fiscal,

imóveis e inscrição na junta comercial.


no mundo jurídico-burocrático-cartorário

tudo que existe precisa ser documentado

conforme algumas regras.


e pra onde vai o que não cabe nessas regras?

a gente que lute para não deixar

o registro jurídico sobrepor

a todas as outras formas

de registro.


2. o mesmo que diário,

seja o pessoal e intransferível,

seja o livro contábil.

o registro pode ser uma elaboração do eu

e também uma análise das contas.


3. peça utilizada para regular o funcionamento de chuveiros;


é importante anotar:

quando essa peça queima,

quando o gás acaba,

quando se precisa dar um jeito,

porque tudo isso custa dinheiro.


todo registro também é uma forma de calibragem

do que se quer e o que se precisa fazer.


4. item essencial em todas as prestações de contas.


5. o registro é uma espécie de coleta,


seja ela provocada,

metódica

ou

involuntária.


é possível registrar sem querer querendo.


6. pode ser uma tentativa de captar ou destacar nuances.por fotografia, gravação em

vídeo, arquivo de som, grafite, pintura, bordado, decoupage, escultura, pixo, maquete

de escola, biscuit, print de tela, contação de história, fofoca, escrita acadêmica,

jornalística, memoralista, de blog ou ficcional.


dizem que poetas e cronistas se dão bem nesse aspecto.


7 . ajuste das lentes utilizadas para captar as nuances citadas no item 6.


às vezes a gente precisa limpar bem os óculos

para conseguir perceber o que,

como e quando

se deve documentar

o que nos cerca.

o que está faltando?

por que está faltando?

por que pareço um turista na minha própria cidade?

quem se faz presente no meu lugar?

nem todas as histórias foram contadas

disse Dalva Soares citando Carola Saavedra


e é verdade.


8. todo registro também demanda acertar as arestas da percepção.


9.é o resultado da observação e seus desdobramentos.


10. o que faz um instante de atenção

durar tempo o suficiente

para se fixar no cérebro


é um momento com uma existência

menos temporária

que sua duração fática.


o registro é a tentativa de manter nossas sinapses funcionando


11. o registro pode tomar forma


e entre tantas formas possíveis

pode vir a ser notas de celular

feitas para ajudar a memória

a funcionar melhor.


as notas podem ser qualquer recurso

inclusive um post it pregado na geladeira

que diga

o que se precisa fazer

e também

“ela esteve aqui” ou

“ela pode estar aqui”

ou “por que ela já não está mais conosco?”.


o registro pode ser um epitáfio,

mas costuma ser ainda mais físico do que isso.


12. é o que fica de uma história que marca o registrante. uma evidência de ocupação

de tempo, espaço, lugar no álbum de família.


13. o registro é uma prova de vida.






Thaís Campolina (Divinópolis/1989) é autora do livro de poesia “eu investigo qualquer coisa sem registro” (Crivo Editorial, 2021), do conto avulso “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” (2020) e da plaquete artesanal “noticiosas”. Também é mediadora de leitura nos clubes Cidade Solitária, Leia Mulheres Divinópolis e Casa das Poetas, além de curadora da página Bafo de Poesia.

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