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"Hibisco roxo", de Chimamanda Ngozi Adichie – ensaio


O presente ensaio tem como objetivo a análise das representações simbólicas do colonialismo através do olhar meticuloso e crítico da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em Hibisco roxo. A história narrada consegue, por meio da criação de uma alegoria narrativa, mostrar as profundas consequências que a invasão europeia na Nigéria desencadeou em diversos âmbitos. Meu objetivo aqui é relacionar os acontecimentos descritos no livro com a realidade pós-colonial dos países africanos a partir do processo de descolonização, iniciado, sobretudo, após a Segunda Guerra Mundial e tendo como embasamento os estudos decoloniais dos séculos XX e XXI.



Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora e acadêmica militante das causas feministas, nascida no ano de 1977 em Enugu, cidade localizada ao sul da Nigéria. Atualmente, foi consagrada como uma das maiores vozes da literatura africana, com obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Seu primeiro livro, intitulado Hibisco roxo, foi publicado em 2003 e marcou uma ruptura com literaturas tradicionalmente eurocentradas, pois narra os efeitos da colonização branca no continente africano sob uma perspectiva intimista e perspicaz. No romance, acompanhamos uma Nigéria que oscila entre realidades diversas e caminha de forma cuidadosa para apresentar as tradições locais mediante o olhar minucioso, e até ingênuo, da jovem Kambili, protagonista e narradora da história. Kambili é uma adolescente que vive em uma realidade financeiramente privilegiada, já que seu pai, Eugene, é um influente empresário do ramo alimentício. Porém, é notável como sua rotina – atravessada por um catolicismo branco – silencia as vivências do seu povo e tenta adequar sua cultura à do colonizador europeu.



A narrativa é estruturada de forma cuidadosa, a fim de mostrar como a dominação psicológica de um povo pode fazê-lo perder sua identidade gradativamente. Eugene representa uma elite negra embranquecida, que é espelho para sua comunidade, pois todos querem ser como ele. No entanto, ao observar a realidade de sua família, percebemos como esse fardo do sucesso é pesado. Para manter o status quo, e em nome de uma fé cega, Eugene reprime seus filhos – Kambili e Jaja – e sua esposa – Beatrice –, que vivem em um ambiente de terror e meticulosamente regrado, no qual não faltam punições violentas por parte do pai, inclusive físicas. Além de todo o contexto opressor, Eugene – chamado de "Papa" por Kambili – proíbe a família de manter relações com seu pai, pois este ainda segue as religiões tradicionais do povo nativo. Percebemos, então, que o sucesso no universo do colonizado está intimamente relacionado com a assimilação da cultura branca e que esse processo pode ser extremamente violento. Diante desse fato, recorremos às colocações de Frantz Fanon (1968): "Vê-se que o intermediário do poder utiliza uma linguagem de pura violência. O intermediário não torna mais leve a opressão, não dissimula a dominação (...) O intermediário leva a violência à casa e ao cérebro do colonizado". (p.28) E ainda, quando lançamos um olhar mais atento às formas de domínio psicológico, enxergamos na religião um dos principais vetores hierarquizantes: "A igreja nas colônias é uma igreja de brancos, uma igreja de estrangeiros. Não chama o homem colonizado para a via de Deus, mas para a via do branco, a via do patrão, a via do opressor. E, como sabemos, nesse negócio são muitos os chamados e poucos os escolhidos". (p.31)



Após Kambili nos apresentar a lógica de emudecimento que passa dentro de sua casa, entramos na segunda parte da história, em que ela e o irmão vão passar alguns dias com a tia – Ifeoma , uma professora universitária que leva a vida de forma muito diferente da do irmão, Eugene. Ifeoma, mesmo cultuando o catolicismo, respeita as tradições religiosas locais e prega uma educação com mais liberdade para seus filhos: Amaka, Obiora e Chima. Ali, Kambili e Jaja são apresentados a uma vida mais leve, sem tantos fardos de uma elite que, obrigatoriamente, precisa assimilar os costumes impostos. A partir dessa vivência, um sentimento de inconformidade cresce dentro de Jaja, o que faz com que ele se rebele contra o pai e o modelo de vida opressor que era reproduzido dentro de sua casa. Entretanto, podemos notar que, por mais que Kambili tenha tido as mesmas experiências que seu irmão, para ela é inconcebível o ato de rebeldia contra seu pai. Sobre esse aspecto do livro, é possível inferir que as mulheres da família – Kambili e sua mãe, Beatrice – são tratadas de uma forma hierarquizada. Lhes é negada qualquer característica que fuja do papel de conformidade e aceitação atribuído às mulheres. Para explicar tal comportamento, é possível a relação com os escritos de Gayatri Chakravorty Spivak (1942): "Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade". (p.15) Segundo Spivak, a condição de subalternidade da mulher é tanta que lhe é negado o direito de existir. Portanto, notamos que Adichie capta essa ideia ao colocar suas protagonistas femininas em um lugar de silenciamento constante, além de condicionar as suas respectivas felicidades ao sentimento de aprovação de Eugene. É emblemática a forma como ele tortura sua filha, jogando água fervendo em seus pés, e ainda assim Kambili não consegue demonstrar nenhum sentimento de rancor àquele ato; afinal, se ela está recebendo aquele castigo, foi porque, em sua cabeça, ela mereceu.



É possível perceber também uma constante atuação do projeto civilizacional dentro do romance. A alteridade construída pelo europeu, que serve à lógica de dominação das populações autóctones, está constantemente presente na forma como a narradora descreve o mundo ao seu redor. O olhar de Kambili perpassa duas noções de mundo: o colonizado e o tradicional. Portanto, ao narrar o universo que cerca sua mansão, por vezes ela não consegue achar sentido nos atos de pessoas menos favorecidas financeiramente. No trecho "Nas cercanias do mercado, observávamos as pessoas loucas e seminuas que ficavam perto dos lixões, os homens que sem mais nem menos abriam o zíper das calças e urinavam nas esquinas, as mulheres que pareciam estar pechinchando animadamente com montes de legumes até a cabeça dos mercadores surgir detrás deles" (p.49) essa relação com o exterior fica evidente. Ao mesmo tempo em que o contato com os ensinamentos dos colonos preenche o saber intrínseco de Kambili, ele a aliena frente às realidades locais, criando uma bolha com multicamadas que separa as realidades. Mas, mesmo com essa distância pragmática da pobreza, a protagonista nunca será vista com o mesmo prestígio de um homem branco. O exemplo mais claro disso é o padre de sua igreja, que é constantemente enaltecido pela comunidade que o cerca pelo simples fato de ser europeu e trazer os ensinamentos cristãos. Para o intelectual Edward Said, isso se explica pelo fato de que a Europa se constrói a partir da diferença com o outro, existe uma necessidade para o europeu de explicar o Oriente por achar que esses sujeitos não são capazes de construir saberes sobre eles mesmos.



Outro ponto que pode ser explorado dentro do romance é a relação poética que Chimamanda consegue atribuir aos elementos que constituem o ambiente em que se passa a narrativa. Ao nos mostrar a libertação gradual de Kambili, ela se apropria do recurso metafórico para comparar essa liberdade com as fases de um hibisco roxo, como se sua protagonista fosse uma flor que precisava desabrochar, afinal, esse deveria ser o curso natural das coisas: os subalternos conseguirem romper a obscuridade que lhes é imposta. Nota-se que seu objetivo é enaltecer a beleza do processo de abertura para a realidade, quase como se Kambili, ao final do livro, conseguisse, enfim, enxergar o mundo sem o véu que encobria sua visão. Para transcrever essa relação, a morte de Eugene serve perfeitamente, pois só depois que o instrumento opressor some é que a liberdade toma o eixo central da história. Contudo, não devemos esquecer que Papa também era um homem negro na condição de colonizado, e que mesmo que ele tentasse reproduzir a lógica de subalternidade dentro de sua casa era também um produto do meio. Para Antonio Gramsci, esse fenômeno se explica pela hegemonia ou colonização do pensamento: existe uma parceria intelectual com parte dos dominados para legitimar a dominação. A questão é: até que ponto Eugene é apenas um instrumento alienado pela lógica colonial? Podemos atribuir uma parcela de culpa a ele? São questionamentos que propositadamente ficam em aberto.



Por fim, podemos concluir que essa obra oferece uma rica camada de referências sobre o mundo colonial africano, usando o exemplo de uma família para mostrar as diferenças criadas pela lógica dominante de um grupo. Partir de um exemplo específico para caracterizar um universo de dominação é uma estratégia comumente utilizada nas literaturas pós-coloniais. É possível observar uma relação similar em A casa e o mundo (1916), de Rabindranath Tagore, no qual a Índia é observada a partir da construção de uma metáfora que a coloca na posição de uma casa. Em Hibisco roxo, essa relação se estende à compreensão de mundo de uma adolescente que foi criada dentro de uma lógica de não existência e violência simbólica. É categórica a forma como as situações vividas por Kambili exemplificam teorias amplamente estudadas e por isso os romances são de suma importância para criar a relação entre teoria e prática dentro da construção de um pensamento intelectual pós-colonial.



Referências bibliográficas

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Hibisco roxo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

GRAMSCI. Antonio. Subaltern social groups: a critical edition of prison notebook 25. Estados Unidos: Columbia University Press, 1949.

SAID, Edward W. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990 [1978].

SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

TAGORE, Rabindranath. A casa e o mundo. 1916.



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Caroline Sodré Viana é historiadora, professora de história e mestranda em ensino de história pela PUC-Rio.


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