A narrativa da insubmissão em Conceição Evaristo – ensaio de Mariana Paim

Atualizado: Jul 16


© Lucxama Sylvain

O livro de contos Insubmissas lágrimas de mulheres teve sua primeira edição publicada em 2011 e reúne treze narrativas protagonizadas por mulheres negras. Essas narrativas são atravessadas e tecidas por inúmeras questões, tendo como fio condutor as vivências de gênero, raça e classe, mobilizadas em seus (entre)cruzamentos desde a perspectiva dos corpos e vidas de mulheres negras. A leitura desse livro não é fácil, pois nós, leitoras, somos levadas a refletir, tencionar e/ou a nos aproximar, e aqui falo como mulher socialmente lida como branca, a respeito das inúmeras opressões que estruturam as experiências das narradoras/personagens.


A escrita deste texto é uma tentativa de ordenar parte do que foi a experiência de leitura do livro, buscando caminhar em direção a algumas das reverberações que a escrita de Conceição Evaristo provocou em mim. Irei, assim, mobilizar a noção de insubmissão, indicada no título da coletânea, como uma chave de leitura produtiva para compreender tais narrativas. Essa escolha é orientada a partir da ideia de que podemos pensar a insubmissão como ato de desobediência e afronta frente à estrutura de opressão que incide de maneira particular sobre as mulheres negras na nossa sociedade, cuja pedagogia perversa não apenas condiciona e busca conformar seus corpos e lugares sociais a partir de uma posição de submissão e subserviência, mas reage com violência a qualquer tentativa de desestruturação da ordem.


A insubmissão se faz presente em meio às narrativas em diversas dimensões: primeiro, através desse duplo gesto de (re) contar as histórias há muito silenciadas pelas narrativas oficiais que não dizem ou distorcem as vivências das mulheres negras, operando assim criticamente no campo do gênero, da raça, da classe e da colonialidade; mas também por narrar e ecoar as vozes dessas mulheres que, apesar de vivenciarem tantas dores, são apresentadas como sujeitas-agentes, protagonistas de suas histórias, senhoras de seus destinos e de si. A insubmissão assim, (re) articula, visibiliza e cria um espaço em que narrativas outras ganham o horizonte do possível. Arrisco e invisto ainda na ideia de que a literatura feita por Conceição Evaristo é produção de conhecimento, de teoria pensada em meio à sua escrevivência, ou seja, uma literatura que assume um compromisso ético e busca adensar a relação indissociável entre o vivido e o escrito.


Essa dinâmica da escrevivência dá o tom das narrativas e faz com que elas se aproximem de nós, seja pelos recursos formais utilizados em suas construções, a partir da figura da narradora/autora como alguém que viaja em busca das histórias de mulheres, as reúne, reinventa, seja por abrir espaço para que os registros de suas vozes sejam audíveis

convocando-nos para, generosamente, partilhá-las. Tal aproximação ocorre também pelas experiências que são contadas a partir delas... e é mesmo difícil não relacioná-las às histórias de tantas outras mulheres negras que vivem em território brasileiro e que convivem direta e cotidianamente com a violência, desde dentro do espaço familiar até o âmbito maior do espaço público.


Essas histórias tornam visíveis a diversidade de vivências em meio a categoria de mulheres negras, assim Aramides Florença, Natalina Soledad; Shirley Paixão, Adelha Santana Limoeiro, Maria do Rosário Imaculada dos Santos; Isaltina Campo Belo, Mary Benedita, Mirtes Aparecida da Luz, Líbia Moirã, Lia Gabriel, Rose Dusreis, Saura Benevides Amarantino e Regina Anastácia, apesar de terem suas vivências atravessadas pelas construções de gênero e do racismo, vivenciam trajetórias bastante diferentes entre si, com relação à origem, geração, sexualidade, corporalidade, educação e classe. Ou seja, há inúmeros temas e fios que se entrelaçam na trama das narrativas do Insubmissas, e eu irei puxar apenas alguns deles, principalmente pensando como a insubmissão se faz presente nas narrativas, contrariando a ordem patriarcal, racista e colonial.


Creio que uma das dimensões a ser abordada é o jogo que as narrativas empreendem em torno das continuidades e permanências do colonialismo, algo que se faz presente com mais intensidade no último conto do volume, Regina Anastácia. O nome da sua protagonista, que também dá título ao conto, de partida nos remete à imagem e à memória da escravizada Anastácia e da máscara de Flandres, história que é (re)ordenada no conto, mas diz muito sobre a sexualização que foi historicamente construída em torno dos corpos das mulheres negras. Um corpo que é pensando em termos de pura exterioridade, como se fosse despossuído de si, esse corpo que é passível de ser sequestrado, simbólica ou fisicamente, é o tema que atravessa a narrativa de Maria do Rosário Imaculada dos Santos, que ainda criança se viu privada dos seus e si mesma, por duas pessoas brancas que a raptaram, sem propósitos, nem objetivos, como se fossem motivados tão somente pela crença de terem o poder de fazer com aquela sujeita e seu corpo o que quisessem.


Essa dinâmica expõe os discursos que colocam os corpos de mulheres negras em uma posição de vulnerabilidade e precariedade e se conecta à dimensão da insubmissão, além de perpassar as construções narrativas que têm como temática a família e os relacionamentos amorosos. Os contos partem de um ataque e desestabilização da estrutura de gênero/raça, pois os mesmos empreendem um discurso que se volta contra a ordem patriarcal, partindo da crítica à ideia de família nuclear e fazendo com que emerja toda a violência que essa configuração resguarda em si. Desse modo, narrativas como Aramides Florença e Shirley Paixão colocam em cena a violência doméstica e a expõem, sobretudo como um signo de um modelo hegemônico de família e de masculinidade que já não se sustenta em suas próprias ruínas e que tem o uso da violência física, sexual e psicológica como ferramenta de controle dos corpos de mulheres.


Mas se as histórias de mulheres que a narradora nos apresenta, em uma primeira mirada, parecem estar contingenciadas nesse ciclo de violações, elas acabam por desafiar essas “[...] contas de um infinito rosário de dor.” (2011, p. 81), e, a partir desse gesto de insubmissão, mesmo diante de tanta dor, podem (re) significar suas existências. Uma (e talvez a mais potente) ferramenta dessa ressignificação se faz por meio da autodefinição, ou seja, parafraseando Patrícia Hill Collins (2016), desafiando as imagens externamente definidas das mulheres negras. Esse processo de reconhecimento das construções impostas sobre os corpos e subjetividades de mulheres negras é exemplarmente narrado nos contos Isaltina Campo Belo e Natalina Soledad, já que ambas confrontam os discursos que tentam enquadrar sua sexualidade e experiência corporal, no caso de Campo Belo, e também a definição de sua subjetividade pelos olhares dos outros, no caso de Natalina Soledad, em direção à busca para encontrar um nome e outras vivências a partir das quais se reconheçam.


Assim, rearticulando e expondo os discursos e vivências desde o local de incidência interseccional das opressões sobre os corpos e trajetórias de mulheres negras, as narrativas não apenas denunciam as violências que pesam sobre elas, mas as reorganizam em meio a um discurso que se estrutura a partir da insubmissão frente à permanência da lógica colonial, do racismo e da ordem patriarcal. Insubmissão essa que também reverbera nas (micro) resistências e revoluções cotidianas presentes nas vidas dessas personagens/protagonistas. A escrita de Conceição Evaristo nos faz pensar na importância da literatura como um local potente de agenciamento coletivo, de mirada de outras possibilidades de (escre) vivências e também como um espaço de cura e ressignificação da dor, já que através dela se torna possível que “Da voz da outra, faço a minha. [...] seco os olhos. Não os meus, mas de quem conta.”


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Mariana Paim, nasceu em Tanquinho, Bahia, em 1986. É poeta, professora, pesquisadora, militante feminista e atua na produção de projetos artísticos que visibilizam e disseminam o protagonismo das mulheres nas artes. Atualmente cursa o doutorado em Literatura e Cultura, na Universidade Federal da Bahia. Tem participado de diversas antologias e revistas, publicou o livro artesanal serei_as: ou ensaio de um mergulho no âncora (2019), está trabalhando na produção de seu segundo livro, Lugar comum, e escreve ocasionalmente em: https://medium.com/@marianapaim.

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