• Carolina Lemos

A irmandade e o estigma do apelo emocional – resenha capítulo 4

Atualizado: Mai 17


hooks, bell. Teoria feminista: da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019 (1984). Tradução de Rainer Patriota.


“Precisamos aprender a viver e trabalhar em solidariedade. Precisamos aprender o verdadeiro sentido e o verdadeiro valor de irmandade.”



É assim que chegamos ao quarto capítulo de Teoria feminista: da margem ao centro, de bell hooks. Já percebemos que diversas lições nos foram ensinadas para aprendermos que mulheres são inimigas “naturais” umas das outras; para desaprendê-las, hooks escreve esse capítulo na expectativa da construção de uma solidariedade política, pois o movimento feminista amplamente empenhado na luta contra o sexismo não é sustentável sem uma frente unida


Para ela, as mulheres só poderão criar vínculos sólidos entre si quando enfrentarem o problema da “opressão comum” (mito que ofusca a verdadeira natureza da realidade social da mulher, que é complexa e multiforme) e eliminá-lo. No entanto, adverte ela, esse problema não será eliminado por um ato de boa vontade ou ideias românticas, como o estigma da irmandade como um apelo emocional destinado a mascarar o oportunismo de mulheres burguesas/brancas. Para elas, as mulheres se unem pelo fato de serem vítimas, mas as mulheres não são vítimas pelo simples fato de serem do sexo feminino, diz hooks. 


A vitimização não pode ser a base da união das mulheres, acredita. As mulheres não podem olhar a si mesmas apenas como vítimas, porque sua sobrevivência depende do exercício contínuo de seus próprios poderes, quaisquer que sejam. Mulheres diariamente exploradas e oprimidas se unem com base no somatório de suas forças e recursos. Esse tipo de união deve ser encorajada.

 

A irmandade como apelo emocional se converte em um escudo contra a realidade. A construção de uma solidadriedade política tem a ver com a definição de novos termos, que não têm como base a vitimização, mas o compromisso político de expor, examinar e eliminar a educação sexista dentro de nós mesmas. 


"O racismo constitui uma barreira à solidariedade entre as mulheres e os contextos culturais totalmente diferentes podem tornar difícil a comunicação." Essa afirmação é muito pertinente quando pensamos a partir de determinadas localizações geográficas, por exemplo: imagino que quando hooks fala do racismo e da supremacia branca ou da branquitude no movimento feminista ela esteja realizando uma crítica adequada ao seu contexto cultural norte-americano, herdado do pensamento ocidental tradicional que moldou também todas as américas. Mas que, ainda assim, se constitui diferente do contexto cultural latino-americano. E para isso hooks fala sobre aprender o código cultural do outro, porque admitir que todas nós sofremos de alguma maneira não quer dizer que experienciamos contextos culturais iguais ou que somos oprimidas do mesmo modo.

 

Para enfrentar essa barreira do racismo, mulheres brancas devem assumir atitudes antirracistas, não fazer desvios da discussão e reconhecer a pauta com racial uma questão feminista fundamental, e não secundária. Apelar à irmandade não é um gesto antirracista, como muitas mulheres brancas acreditam, até porque agem como se fossem donas do movimento, enquanto as mulheres negras seriam suas "convidadas". Reconhecer o próprio racismo só é importante quando leva a uma transformação, combatendo a educação racista e deixando de abusar e machucar mulheres não brancas. Para construir a irmandade é preciso também criticar e repudiar a exploração de classe, focar na desigualdade social para caminhar em direção a uma solidariedade política. 


É através da empatia que as mulheres precisam aprender a aceitar a responsabilidade de combater formas que opressão que talvez não as atinjam diretamente; se expor a situações em que os conflitos ideológicos não impeçam a comunicação de acontecer e nem o debate de avançar para um maior grau de interação; e compreender diferenças para mudar perspectivas distorcidas e equivocadas. É assim, que bell hooks vê um caminho para a solidariedade política, por comunhão, crença e objetivos.


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Carolina Lemos, geógrafa interessada na geopolítica das mulheres, tem 26 anos e estuda estratégias de organização e resistência social de mulheres no território em rede. Sapatão, suburbana e artesã (@artesasdevenus), faz da leitura e da escrita um verdadeiro ato político.  

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