Quatro poemas de Fátima Pinheiro

Atualizado: Fev 26


© Shivangi

godard, você e todos eles


a língua nunca será linguagem, nem por qualquer

desvio aleatório. impossível um coração virar

guarda-chuva, assim como emile dickinson virar

pizarnik. eu bebo uma cerveja, coloco a perna


sobre a cadeira e penso no kama sutra néon. se eu

não tivesse visto “imagem e palavra”, de godard,

não haveria orelha para a escuta, só passos

vacilantes, respiração curta, nem cerveja

para beber.



*




escava faz aberturas em mim

descasca os araticuns maduros

traz as labaredas a sina

faz de meu pranto luz


de minha voz

lua que não seca




*




nesga tronco regaço

na linha do equador a morte submarina

quente como a carne que corta

o rosto dadaísta da mulher nua no espelho

bela bela

liquefeita na porção de um pequeno espaço

com a boca trancafiada no silêncio

seria tão simples não morrer




*



gloria


ao escutar a voz de patti smith,

cantando naquela manhã gloria, fiquei doida.

me cobri de morim branco

e acordei para dentro de sua voz:

racimo de sal.

saltava o silêncio escuro, sereno.

lá pelo meio-dia: gloria.

gloria apaga de meu corpo toda dor,

enquanto a tarde que se anuncia sopra caceias


e vozes de peixe:

gloria.





_

Fátima Pinheiro nasceu em Bagé/RS e vive no Rio de Janeiro/RJ. É psicanalista, escritora e artista visual. Lançou o livro sim, é (BLANCHE/PR), em dezembro de 2020, na Livraria Argumento/RJ. Publicou poemas na “Macabéa”, “Mallarmargens” e na edição anual da “Zunái” (2020). E-mail: mariafatimapinheiro01@gmail.com




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