Quatro poemas de Ana Maria Rodrigues Oliveira

Atualizado: Fev 26


© José Lorvão


As mulheres da minha vida


As mulheres da minha vida vestiram-se de negro

Procuraram conforto nos campos onde as oliveiras e os sobreiros brotavam

Como se traçassem um acordo de luz sobre as planícies ibéricas

Onde os caprinos saltitavam por entre pedras canchos e ribeiros

Sustentando os sonhos mantendo-os iluminados na sua mente e inteiros

O negro acalenta a morte dos filhos

Em tragédias encenadas nos caprichos dos deuses

Onde os soterramentos e envenenamentos espreitam sádicos

As crias jovens afoitas à tempestade e aos truques ratoeiras dos mágicos

O cajado em punho pela domadora de grunhidos

Equilibrista dançarina entre desertos barrancos

Amante das flores selvagens dos trigais concubinos

E das viçosas pastagens que escondiam misteriosos entroncamentos


As mulheres da minha vida silenciaram a violação o corte a cisão

A invasão das entranhas e defrontaram um mundo sem lei nem sustentação

Abafaram a magra comida a pobre refeição

Calaram a voz mas não alma

Porque a sinto em mim mesma até na noite mais calma

Cerraram os dentes perante a traição

Mas determinadas acenderam as lareiras mesmo sangrando do coração


As mulheres da minha vida amaram sem peias morreram solteiras

Encenaram um palco de risos e roseiras

E levaram consigo a paixão pela vida a admiração da estrela mais longínqua

E dançaram em delírios de entrega à vida e alegria

Contra palcos de sanfonas em sapateados de chinelos velhos estridentes

Perante a frieza cortante dos deuses indiferentes


As mulheres da minha vida ergueram pás deram serventia a pedreiros

Construíram muros e telhados

Derrubaram muralhas de pedra pavimentaram o chão mesmo em tempos malfadados


Acalento em mim todas as mulheres da minha vida

Quando abraço cada árvore do bosque e encosto o meu corpo

Aos menires de outrora nos lugares sagrados da terra

Quando nado nas águas calmas dos lagos e dos rios

Quando enalteço e amo os animais na cavalgada da existência

Quando a mente se acerca do corruptível com que nos embrulhamos

E os elementos naturais se transformam em bens essenciais

Ou em mantos negros com que nos transformamos em seres irreais


Guardo em mim a revolta que não pode nem deve silenciar o estuprar

Os atentados à vida feminina e as traições

A luta pela subsistência a infâmia dos políticos roubando o que é de todos

Ignorando e maltratando as famílias por ganâncias e corrupções


O meu corpo e espírito dançam cada vez que a vontade me puxa

Para a ondulação das águas dos abismos das fráguas

Até que o corpo capitule e se ausente deste mundo e morrer

Para noutros cenários laivos de mim possam renascer

Sinto colada a mim a liberdade de amar

Por entre o entusiasmo da construção de beirais onde as andorinhas edificam os ninhos

Apanho o voo delicado e estonteante dos flamingos para outras paragens outras geografias novas aragens

O meu coração plana até aos confins da galáxia para lá da lua amante

Do sistema solar salto abandonando os lamentos saudosistas e a intriga delirante




*



Escondida nas dobras


Esvoaço e num deslize capto o apaziguamento das libélulas

Fadas deste e doutro mundo

Manobram-me os pensamentos e fazem acontecer

Cintilações de amenidade em foles que sopram a brisa da serenidade

Pois quando julgo que o meu corpo caiu na fossa

Eis que energias entre dobragens me sustêm

Me provocam a flutuação sobre brisas

E fluem espaçadas e coloridas

Mesmo nas horas mais confusas e indecisas



A concertina afaga os sons das criaturas aladas

Que dançam sobre os rios e os lagos

E as minhas lágrimas de desespero unem-se à água corrente

Procurando buracos de acesso a novas margens

Outros espaços em expansão e delirantes paisagens



A tropelia aguarda porém para aplaudir quando cair por terra

Quer apanhar-me desprevenida quando a convivência

Se tornar enfadonha e austera para me cortar as pernas

Definhar-me os braços espetar-me as lanças afiadas

Rir-se na minha cara perante solas de sapatos desgastadas


A harmónica dobra-se pelas mãos do tocador

E eis que estranhas palavras se inventam

Outros tesouros se desfolham

E novas estradas se desmembram

Para outros rumos surgirem por entre linhas e curvas

Que se entrecruzam na gratidão plena

Do meu centro sentido vivido dado e partilhado do meu coração

Se pudesse eu caminhar pela montanha

Num carreiro estreito e brando imenso

Não quereria mais nada

Estaria em paz pois alcançaria o meu merecido descanso



*



Covardia


O medo carcomido bloqueou a língua das criaturas veneradoras

De ícones e teatralidades existenciais

Enquanto os bichos da madeira abrem currais

Para outros invertebrados que prostituem manjedouras


O medo contaminou os cérebros dos meigos

Dos introvertidos dos dedicados dos extrovertidos dos leigos

Lança a sua garra afiada traidora de mãos e bocas

Rodopia contente e inebriante entre muros sonoros

Finge o mono desgraçado que não existe

E esconde-se por entre as dobras dos corpos

No meio dos sulcos das roupas coladas à intimidade nervosa dos suores

Debaixo dos sapatos e dos chinelos de andar por casa

Fazendo sentir aos pares de olhos que proliferam sobre as cadeiras instáveis

Como passarinhos remelosos asfixiando na gaiola

Onde por maleita e obstrução à inteligência caiu de paralisia a asa


O medo riu-se das beldades maltratadas pelo mundo

Entrançado pelas patologias desencontradas

Sobre a mesa redonda do livre-arbítrio

Onde escorre a ambiguidade das estratégias

A superficialidade sem pesquisa das manobras

O aplauso ao passatempo corrido atrás dos tapumes

Da oralidade viciada da retórica deslavada

Das mãos gretadas gargantas bloqueadas

Dos ouvidos entupidos membros doridos

Pontapeando a artrite pestilenta escoando as lágrimas dos beirais

Extravasando as emoções do grito mudo das hérnias discais


E o inverno que se instala no branco gelado dos corações

Onde a alegria renunciou ao riso

O abraço refugiou-se no buraco mais fundo de cansaço

Mas quem sabe a dança das bruxas na profunda floresta

Sobrevive ao desfecho trágico

Desabotoando os mantos em luzidio desenlaço



*



Vagabundear


Os encasacados pedestres apalpam o piso da passeata soalheira

Aguardando a cópula do sol sobre o horizonte

Enquanto os fetos humanos pressentem para lá da cortina vermelha

O conflito a violência o amor vendido a bandalheira


Transita por entre o frio da tarde de inverno a cinematografia dos abraços

As lágrimas correndo inundando a maquilhagem das faces

Que amachucadas experimentaram dolorosos desenlaces


Pantomineiros repuxam para a tela os gestos envaidecidos

Pela pintura exagerada do arlequim transfigurado

Na surpresa bailarina embasbacada pelos patéticos sorrisos

E na inversão da imagem saltitam os reflexos provocadores

Perante a personagem desprezada solitária e mal-amada contempladora do céu

Denunciando posses transitórias na profundidade dos espelhos percursores


Ante a nudez calorosa do equilibrista

O ciclista pedala na corrente curvilínea da explorada e perversa pista

E por entre o ritmo do vem e vai

Eis que num gesto desinteressado a criança resmunga

Num gesticular de revolta recusa o fascínio pela tecnologia engana tolos

E vira costas ansiando pela dança bordando com os pés o chão

Gritando um histérico não ao pedido de tirar uma foto com o respetivo pai


O enrolamento das ondas anuncia a revolta interior

Contra as plataformas movediças cheias roliças

Da engenharia informática angariadora de escravos felizes tal é a sedação

Enquanto o surfista corta as malhas da rede

Manobra os sonhos negros medonhos em fantasia malfadada

Com malabarismos de navegador ao sabor dos vórtices

Desprendendo-se a salsada patológica no traçado psicótico

Em choques elétricos agitando os neurónios descontrolados da espécie castrada




_

Ana Maria Rodrigues Oliveira nasceu em 17 de fevereiro de 1960, em Portugal, no Alto Alentejo, no distrito de Portalegre e concelho de Castelo de Vide. Em 1986 finalizou a licenciatura em Filosofia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Licenciatura que lhe permitiu lecionar filosofia durante alguns anos. Edita o seu primeiro livro de poesia, Grito de liberdade, em 2008 através da Corpos Editora. Dedica a obra a todas as mulheres, pela luta e determinação com que enfrentam as adversidades de uma sociedade que ainda manipula e escraviza. Ainda no mesmo ano participa de duas coletâneas: A arte pela escrita (prosa), da editora Escritartes e Poemas sem fronteiras “Ora vejamos…2008”, Editora LULU de Leiria que faz uma recolha impressionante da poesia contemporânea. Nesta última, a autora obtém o prêmio da Menção honrosa com o seu poema “Farsa”. Lança Espírito Guerreiro (edição do autor), seu segundo livro de poesia, em 2014. Participa de um projeto ligado a filosofia para crianças. Apresenta os seus trabalhos, entre eles algumas resenhas, em várias revistas de literatura e poesia. Mantém alguns sites em que divulga a sua escrita: abismo verbal, devir quântico, contar com sentido etc.




65 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo