Várias: seis poemas de Lita Sahun

Atualizado: Abr 20


Street art sculpture – scary faces. Artwork on the Lennon’s wall in Prague.

as maritacas

de tanto que gritam

ninguém ouve

e na permanência do som

no silêncio dos surdos

é que elas são elas


***


ontem vi a apatia. sentada na poltrona. cabeça baixa.

mórbida. pés unidos em um só. esteve assim. e seu

único ato foi levantar os olhos e mirar os meus.


***


obcecado por todas as respostas

enferrujou-se o cadeado

trancado nas perguntas

o menino chorou

apagada a memória

a chave emperrou

dono das soluções

o homem dormiu

a mulher acordou


***


finge doçura

arranha a parede

destrói a pintura


***


rio que flui

espaços contínuos

acelera por dentro

e demora a estancar

sangue revolto

pede passagem

esquece da hora

e volta a sangrar

sai sem demora

suja o tapete

esquece da volta

tende a escapar

volta depressa

corre a entrar

escura é a cor

e pode manchar

vermelho que impõe

rasgando essa fibra

pode sair

mas prefere ficar


***


nem sempre escrevo

há vezes em que olho o azulejo

branco

ininterrupto

e vejo palavras

vazias

escorrerem pela parede


_

Lita Sahun é escritora, atriz e professora. Estudou Letras pela UFRJ e Artes Cênicas pela Escola Estadual Martins Penna. Várias é seu segundo livro.




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