Três poemas de Anna dos Santos







tem uma mancha no meu rosto

de um dia em que eu caí

de bicicleta

com a cara bem grudada

no asfalto

minutos antes

correndo

eufórica

desatenta aos obstáculos:

o rosto carrega acidentes


tem uma pinta na minha testa

apareceu pequenina quando eu tinha oito anos

hoje é grande, marca minha

mas meu pai não teve tempo de me conhecer com ela

e tantas coisas também

em mim

que ele não viu:

o rosto carrega ausências


tem um nariz no meu rosto

grande e presente

que eu já quis não ter

alterar dimensão, ser como alguma coisa

o como, essa conjunção

da vida das pequenas meninas sempre no comparativo

com o inalcançável

hoje aceito, gosto e me reconheço:

o rosto carrega triunfos


tem a minha mãe também no meu rosto

e a mãe da minha mãe

e um tanto mais além nessa sequência

assim, bem na minha cara

a cara misturada das mulheres que me criaram

e das que eu nem pude conhecer:

o rosto carrega memórias


tem nordeste, sudeste, índio, branco e preto no meu rosto

tem brasil na minha cara

esse pindorama controverso

o divino, o maravilhoso e o horrendo:

o rosto carrega histórias


tem tanta coisa no meu rosto

e no rosto de qualquer pessoa

o sol que bate ou que deixa de bater

a vida que acontece toda dentro de uma vida só

que se mistura sempre a tantas

de outros rostos


de onde a gente veio

como a gente anda ou samba por aí

tudo isso

o dito e o não dito

o choro que derrama e o que fica preso, parado bem no

canto do olho

tem no rosto


você no meu

refletido na pupila

e todas as expressões

que o sentimento desenha

junto com as sinapses


tanta coisa e história

no rosto dele

no rosto dela

nos rostos nas ruas

com calma, com pressa

com medo


tanta coisa que você nem vê

que não tá na cara

mas olha

e se espanta

que uma pessoa então não carrega um rosto

antes disso:

um rosto carrega uma pessoa.



*



tenho sido um céu

azul e triste

perdido nas pontas do mundo

a dor que hoje me visita

arde

e tem cheiro de sol



*



quero invadir os quadros de van gogh

gritar que a arte é miserável e destroçar o amarelo.

ser a poeira que dança sob a luz:

partícula, película, ridícula: decadente! vã e imensa

suspensa, mesquinha, vil.

morar junto à sujeira que abriga o canto da unha,

que arranha a carne e maltrata a pele.

andar com os ratos e ruídos aos rastejos.

matar, morrer, dilacerar.

quero ser a poesia corrosiva que estorva o sono do careta,

que trucida o nobre e aniquila o livre.

sangrar assassinando cada poro...

sufocando lentamente pra fazer sair o ar.



_

anna dos santos, autora de Um rosto morno é uma folga, gosta de sol e de desbravar caminhos. por urgência e desassossego, escreve poesia e estuda filosofia na UFRRJ. também é livreira na canto geral – livraria criada em conjunto com dois amigos – e DJ residente do espaço cultural casarão, ambos localizados na baixada fluminense, onde mora atualmente.

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