Poemas da quarentena #6


A ação é inspirada na iniciativa de mesmo nome de Simone Brantes e Heleine Fernandes, que estão reunindo, no perfil da primeira no Facebook, poemas sobre e para ler na quarentena. No blog da Macabéa, o recorte é de autoria de mulheres.

A pandemia que nos leva ao isolamento e ao fechamento de fronteiras também conduz à intensificação de desigualdades sociais e de violências domésticas, e torna-se ainda mais grave com a crise política que o Brasil atravessa, nos obrigando a conviver com uma multiplicação exponencial da morte, esse nosso confim. Cada pessoa, em seu canto, vivencia um cotidiano confinado, habitando, entretanto, o mesmo mundo doente, de repente estranhamente semelhante a um sonho ruim, uma espécie de distopia. A experiência é traumática porque desafia nossa capacidade, sempre renovada, de conferir sentidos ao real e projetar futuros. Modesta tentativa de recolar os cacos, talvez a poesia seja um jeito de improvisar um horizonte no meio da tempestade. Agradeço à Bianca Garcia, editora da Macabéa Edições, pelo convite para integrar e editar essa série de “Poemas da quarentena”, à Simone Brantes, pela iniciativa de coletá-los, e às poetas que aceitaram seu desafio, pelos textos que tive o prazer de ler. _

para Simone Brantes

depois de uma semana inerte percebo que virei um gato desses que vivem em apartamento alternando o sono & a refeição com algumas distrações banais (um filme/um meme/um poema) me alivio com o óbvio : as coisas ainda caem no chão a lei da gravidade ainda funciona os felinos ainda ronronam

Camila Assad

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made in china há tempos aprendemos tão fatal a precisão dos correios traz o longe à nossa porta na rua, o elemento estrangeiro em casa, um celular e o número de rastreio: chega em três dias talvez antes questão de tempo quando criança brincávamos me lembro de passa anel, de batata quente o objetivo era passar, de mão em mão o objetivo era que não ficasse em você o objetivo era descobrir com quem estava o objetivo era passar o mais rápido possível para o outro batata quente quente quente queimou questão de tempo na televisão o presidente despreza a precisão dos correios – preciso mesmo seria se fosse privatizado

Gabrielle Albiero

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somos zumbis ou plantas jogamos jogos de aventura sem sair do sótão aprendo a palavra “consolar" na língua em que gaguejo uma canção de amor sobre a não escolha a palavra “alma” parece um sim alô alô alô uma criança cujo nome desconheço tenta contato pela televisão os telefones transmitem piadas em looping catástrofe em looping nossa ignorância minha amiga sozinha em casa envia fotos de pimentões temperados são tão vermelhos ou é a imagem

Laura Erber

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dois graus menos que ontem é hoje imagino a sequela da chuva passada uma cova adentrando a vala rasa e mais outra e outra o barro dissolvido à espreita: qualquer sonata vela teu corpo a vala o velho a vespa o vírus abraça a terra, seu sol gira em torno de nós gato não pega rato também não nem mosca nem madeira papel escritório as grandes corporações o banco só nós – [antropo]centro do mundo agora no entanto, é certa a miséria: aporta no Meireles e vai morrer na Barra.

Ma Njanu

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Confinamento Lá fora o dia azul traz os jornais e seu lote de mortos Encolho-me aqui no meu canto mais triste Sei que o mal está no ar fresco desta manhã luminosa mas as mortes cotidianas não me convencem Como acreditar Naquela que me espera?

Patrícia Lavelle

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silente não sei como deve ser fundar uma vila chegar entre mata muito fechada ou ir ao encontro da natureza inviolada dos terrenos e das clareiras mais sagradas e puras do mundo sei apenas dividir meu cabelo, partir o pouco pão a que tenho direito, gastar a cor das sapatilhas com que ando não sei recuperar a luz dos dias mais bonitos e escrevo neste lugar temente de que de repente tudo finde e nós não tenhamos testemunhado quase nada sobre a beleza daquilo que vimos e não pudemos guardar.


Tatiana Pequeno

_ Além de poeta, Patrícia Lavelle é professora do Departamento de Letras da PUC-RJ. Fez doutorado em filosofia na École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde também deu aulas, publicou e organizou livros de ensaios na França e no Brasil. Estreou em poesia com Bye bye Babel (7Letras, 2018) e, em colaboração com Paulo Henriques Britto, organizou O nervo do poema: antologia para Orides Fontela (Relicário, 2018), volume para o qual também contribuiu com poemas inéditos. 

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