Poemas da quarentena #5


A ação é inspirada na iniciativa de mesmo nome de Simone Brantes e Heleine Fernandes, que estão reunindo, no perfil da primeira no Facebook, poemas sobre e para ler na quarentena. No blog da Macabéa, o recorte é de autoria de mulheres.

dança comigo escorre súbita pelas nossas mãos não, não há vida depois de nós fode comigo seu ódio goza na cara deles agora o assombro faz tocaia pela janela da sala

Silêncio, voz e profecia. E não estou sozinha através de telas frias. De Daniela, o espanto desfalecido. De Fatima, não há depois. De Giovanna, o urro. De Juliana, o assombro. De Leila, a distância. À distância, todas nós e ela toda, que dança, rodopia, isola e escandaliza. Seis faces dela, e por ela, afinal, estamos.


_


o tempo 

se alastrou

mole

plácido

no chão do quarto


e no ar pueril 

o contágio 

dançou

alado

as ilusões mecânicas

de um mundo 

à beira

fluem roucas

até o ralo


e não há máquina

que capture a morte

que nos encara

da janela

da torneira


lúcida

esquiva

traiçoeira


doce

súbita

lado avesso

da vida


escorre pelas mãos

unguento vivo

de sangue

e poesia


se derrama

dengosa

mas não se demora


passa

como tudo

passa


e fica

ponta afiada 

de faca


a um suspiro

do arrepio

do assombro


não nos esqueçamos jamais


pois que é 

do espanto

que se faz um corpo


Daniela Cassinelli


*


não há


não, não há vida após a morte: só há paisagens mudas do mar, talvez um feixe de magnólias atirado às ondas, talvez a palavra “zarpa” – forçada a fugir – para inverter a boca de quem fala. não, não há vida após a morte: o sol não mais ilumina, porque o antúrio passa a ser o silêncio natural de todas as plantas, porque não se pode sair das plantas por meio das plantas. não se pode sair debaixo de um céu antigo por meio do céu. não, não há vida após a morte, porque não se pode sair da vida 1 minuto antes da morte.

Fatima Pinheiro


*


É preciso que se diga Diante dos corpos Em nome dos mortos “Eu quero a morte do genocida” Foda-se tua sombra agora Foda-se teus bons modos Aprendidos nos bons bairros Dos bons shoppings Das boas cidades Diante de amigos e lugares comuns Foda-se os bons poemas Os poemas de esperança Diante dos corpos incinerados Dos corpos empilhados Em pistas de gelo Manda o genocida e sua prole Engolirem a própria merda O próprio esgoto Enfia narizes, bocas, mucosas no meio das fezes, na carne dos cadáveres Aprende como cheira a morte Aprende a mandar tomar no cu Aprende a não ter medo do que sai da tua boca Se teu compromisso é com a vida Olha de frente o puto Olha de frente o mal

O mal tem nome hoje Dança sobre a laje Honra teus mortos Coloca na boca E nas mãos a raiva dos que nos trouxeram aqui Tua boa educação, teus bons poemas Fode com eles Goza com eles Mostra pros amigos Os mesmos Mas aprende Tua falta de ódio é flacidez Do músculo cardíaco

Giovanna Dealtry


*


Comuns


Assombra-me a distância do extraordinário O sonho revogado A rotina miserável O tempo perdido com o banal Assombra-me a mediocridade Que à porta bate E se a gente não abre

Faz tocaia na esquina Assombra-me gastarmos a vida Dentro de dias comuns

Juliana Valentim


*


Edifício Líbano II


pela janela da sala a cada manhã olho sem pressa os jardins do Líbano –

tento juntar os nomes que sei às árvores que vejo

ipê? araucária? jequitibá?

em vão

onde o cedro- -do-Líbano?

talvez sua sombra proteja minha amiga de Beirute que nos anos oitenta desenhava minúsculos retratos enquanto sofria à distância por seu país em guerra –

gostaria de lembrá-la é urgente que saiba atravessaremos o deserto nos próximos dias

respire fundo, tome fôlego é quase hora de deixar o Egito

sem sair deste Líbano em Copacabana.

Leila Danziger


*


sou fado tento me equilibrar entre o mar de melismas nado à superfície e afundo

quebro nua no movimento das ondas subo e desço vou e volto sufoco há algo nas cartas eremita é ao que estou fadada é foda é claro me fode vibro da garganta às pontas dos dedos de dentro das coxas à além-vulva fardo e mistério navegam em mim derramam de mim destina-se a mim sou silêncio sou voz e sou profecia

Mariana Xavier


_

Mariana Xavier é mulher, mãe e gente. E leão. Enquanto corre pelas ruas da cidade, apresenta-se professora historiadora especialista em gênero e sexualidade. Fitogente de quase 30. Mas é mesmo mulher, mãe e gente. E leão. Em 2017, publicou seu primeiro livro, Ínfimo, pela Macabéa Edições.


215 visualizações