Perto do coração selvagem, o mundo – conto

Este texto faz parte do livro Explosão! Clarice Lispector nas linhas e entrelinhas de 31 contos, cuja organização é de Ana Paula Botelho e Isa Martins, publicado pela Escrita Docente-Literária.







Perto do coração selvagem (1944) foi o meu primeiro caso de amor com a literatura. Não que eu soubesse, à época, distinguir a singularidade da escrita de Clarice Lispector, sua prosa poética e intimista, e sua inegável originalidade dentro da tradição do romance brasileiro. Não, nada disso me alcançava no ano de 1991, quando eu tinha apenas catorze para quinze anos de idade, na pequena cidade da Zona da Mata Mineira, Cataguases.


Não me lembro exatamente como o livro veio parar em minhas mãos, mas algumas reminiscências me chegam. Àquela altura, eu não havia lido ainda o conto Felicidade Clandestina, não conhecia a criança má, que brinca com os sentimentos da pequena leitora que parece ser a Clarice menina, fazendo-a retornar inúmeras vezes à sua casa para admirar sua biblioteca farta de livros que a garota não lia, na promessa de emprestar lhe “As Reinações de Narizinho”, em um dia que nunca chegava. E embora eu tenha experimentado a emoção de uma leitura clandestina na primeira vez em que pousei meus olhos naquelas páginas maravilhosas, ao contrário da menina sádica do conto de Clarice, foi um ato de generosidade, uma prova legítima de amizade, que me colocou em contato com essa joia que me fez cintilar por inúmeros dias que se seguiram.


Nívea era um ano mais velha que eu, e morava no mesmo bairro. Estudávamos no Colégio Cataguases, uma escola que funcionava em um edifício moderno, de Oscar Niemeyer, quando o arquiteto ainda assinava Oscar Niemeyer Filho. Todos os dias pegávamos o ônibus às 6h15 da manhã, e caminhávamos da Praça Rui Barbosa até a Granjaria, para as aulas que iniciavam às 7h. Às vezes, outras companheiras de colégio de minha amiga nos acompanhavam nessa jornada, e eu tinha grande respeito por essas moças “mais velhas”. Todas eram aplicadas, com seus uniformes e cabelos volumosos e impecáveis, e eu, com os fios ralos e oleosos, mesmo que me esforçasse, sabia que nunca chegaria aos pés delas. Entretanto, já era um grande avanço tê-las como amigas e compartilhar aquela jornada diária, por duas praças, e a longa Avenida Humberto Mauro. Eu não reclamava.


Dentre essas moças, havia uma que morava na Rua de Cima, na Pampulha. Não me recordo seu nome. Era uma concluinte do Ensino Médio, que à época chamávamos de “Científico”. Ela falava pouco, ao contrário de mim, que sempre fui uma tagarela inveterada e, vez ou outra, essa adolescente, quase uma pessoa adulta, conversava num tom de voz baixo com minha amiga. Elas eram elegantes e contidas, e eu admirava aquelas boas maneiras, aqueles gestos contidos e inimitáveis, contentando-me com a honra de ser aceita no grupo. Minha natureza contemplativa, para minha sorte, sempre foi mais forte que minha vaidade.


Pois veio o dia em que a moça da Rua de Cima apareceu com o livro. O jeito que o segurava, a maneira com que suas mãos de unhas feitas de renda alisava as páginas e a lombada enquanto conversava, fazia parecer que aquele objeto tinha algo de precioso, como se guardasse segredos ou surpresas delicadas. Começou um diálogo com aquela sequência de sussurros que eu apertava os olhos para entender, mas pouco me chegava daquela conversação cheia de véus.


Ela falava do romance que tinha em suas mãos, com um entusiasmo discreto, de quem possuía intimidade e amor com as aventuras que descrevia. (Sim, àquela época, em que minhas leituras favoritas eram Os meninos da rua Paulo e Alice no País das Maravilhas, além de inumeráveis de Sidney Sheldon e Agatha Christie, eu julgava que livro que se preze deveria ter um mistério a ser desvelado e peripécias. Eu nada sabia da dangerosíssima viagem de si a si mesmo, de travessias e margens. A moça, então, com um sorriso, em seu rosto sem espinhas, passou o livro para Nívea. E eu, que era uma leitora voraz, fiquei cheia de desejo por aquele volume que me parecia um passaporte de entrada para conversas mais profundas que fariam de quem o lesse uma jovem mulher, como a moça da Rua de Cima.


Saímos do ônibus em silêncio na Praça Rui Barbosa. Perto da Nacional, uma loja de utilidades domésticas, a moça encontrou amigas de seu ano de escolaridade, e seguiu à nossa frente. Alguns minutos se passaram, e quando a estudante ganhou uma distância maior, Nívea me disse: "toma, você gosta mais do que eu, você lê, me devolve, eu leio, e devolvo para ela".


Fiquei, inicialmente, perplexa. Mas minha alegria era maior, e eu achei muito justo, e tomei todo o cuidado com o livro. Minha amiga captara o que eu sentira e cedera-me, gentilmente, a vez. Fui de uma disciplina marcial. Não comi pão com manteiga ao lê-lo, evitava expô-lo a qualquer situação perigosa, preservando-o do meu jeito estabanado. Nívea abdicara desse prazer maravilhoso, e eu honraria sua confiança. Eu, ao contrário da menina do conto de Clarice, não adiava a leitura. Joguinhos nunca me encantaram. Chegava em casa, e, num átimo, já estava trancada no quarto, com sede e fome por aquelas páginas.


Longe do mar, na Minas sem mar, eu estava à beira da praia com Joana, às margens de meu coração selvagem de adolescente. Joana, a personagem principal, me revelava muitas coisas sobre mim. Não uma revelação clara, passível de ser registrada verbalmente, mas um mistério ora difuso, ora cintilante, de um corpo que pulsa e está em crescimento, que oscila entre a dor e prazer. Joana queria conhecer sua verdade interior, mas ela era corpórea, divina e profana ao mesmo tempo. Ela vivia em uma galáxia estranha, mas, ao mesmo tempo, sentia ser aquele seu país a pátria de minhas sensibilidades. Via nas ações e pensamentos de minha heroína sensações análogas às que eu sentia. Como? Aquela escritora, aquela mulher era uma vidente? Ali estava o meu caos interior, e vê-lo em forma impressa, em um livro, perceber que alguém podia encaixar aquele objeto de letras pulsantes em uma estante de uma biblioteca, me trazia o suave aconchego de que eu um dia, quem sabe, poderia entender meu lugar no mundo, preservando minha singularidade. “Tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim que se possa unir aos seus baixos-relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja no vital sem saber; é essa a minha maior humildade, adivinhava ela.” (LISPECTOR, 1980, p.19.)


As lacunas deixadas por Clarice, seu jeito de escrever deixando frestas para que o leitor dialogue com sua subjetividade e a intensidade das sensações que povoam sua escrita, tudo isso vivenciei naquele primeiro livro que elegi como primeira experiência de leitura adulta de minha vida. Tal foi minha surpresa, quando, já na universidade, tomei emprestada a sua fotobiografia, escrita por Nádia Battella Gotlib e soube que Clarice escrevera aquele livro com apenas vinte e dois anos. A epígrafe, que fora sugestão do amigo a quem nutria uma paixão impossível, Lúcio Cardoso, captava a energia selvagem da protagonista, mas gerou muita confusão, pois muitos críticos entenderam que Clarice era uma leitora de James Joyce, (e até o imitava) – o que a autora sempre negou.


Já na Faculdade de Letras, soube que a crítica, composta majoritariamente por homens, havia recebido o romance com reservas. Narrativa incompleta, cortes abruptos, protagonista narcisista, foram algumas interpretações equivocadas na ocasião de sua recepção. Não foi assim que meu jovem coração o recebeu. Sim, eu não entendia muita coisa, mas era isso mesmo: viver era importante, entender – isso podia esperar. “Sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais.” (LISPECTOR, 1980, p.201).


O livro me fez adotar um comportamento que jamais tivera. Assim que o li, não o devolvi de pronto. Lia e relia as partes de que mais gostava, o abria casualmente, como se fosse um oráculo que me dissesse coisas valiosas. Um dia, estávamos jogando queimada e a Nívea me disse que já era tempo de eu devolver o livro. Que nem daria tempo mais de ela ler, porque eu demorara demais com ele. Eu senti verdade naquelas palavras, e um pouco de culpa também, minha amiga que havia sido tão generosa comigo não poderia ler aquelas páginas bonitas. Eu fui em casa correndo, peguei o livro, entreguei para minha amiga sem dizer nada, temendo ali em perder sua valiosa amizade.



Confira vídeos da Degustação Literária, no canal do YouTube Escrita Docente-Literária.



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Cassiana Lima Cardoso é professora adjunta no Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira, CAp-UERJ. Participou de duas antologias, Haicais e poemas curtos (2018) e Entradas para cotidianos, coletânea de microcontos ( 2019). Ainda no ano de 2019, publicou seu primeiro livro solo, Desastrada e outros contos breves, integrando a Coleção I do Mulherio das Letras. Na primavera de 2020, publicou Matrioska de chita: haicais de outros poemas, integrando a II Coleção do Mulherio das Letras.

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