Passos e cortes: quatro poemas de Julia Neiva

Atualizado: Abr 20


© Ekkapop Sittiwantana

rubro


com a mesma mão

que assino documento

cheque

recibo de hotel

a contracapa

dos meus livros


com a mesma cor que passo

em meus lábios

maçãs do rosto

verniz do chão antigo


é a mesma cor

em tantas nuances

texturas

rubro pássaro-coágulo

escorre rio-cachoeira-oceano

em tantos

rostos, pernas


mãe lua

com sua paleta

acalenta

os espasmos

as dores

as lágrimas

tremores

eu tremo

tu tremes

ela treme


solvente

dissolve

o que não veio

a culpa se vai

os anos de

silêncios escondidos

entre panos-copos-fios


os anos que ainda

silenciam

comprimidos

em um órgão

sem autonomia



corriqueiro


os barcos mansos flutuam

sobre os barcos agitados

levo as ondas efêmeras

que ondulam no pêndulo da língua

escassa de linearidade

levo os olhares

turvos

levo os peixes

mortos

levo a batalha de existir

em todos

em mim

na ponta do lápis



acácia


me decepciono com os significados nos caminhos para a casa

– e são tantos três mulheres na via com o carro quebrado acenam para avisar – são ajudadas porque são

mulheres a mulher silenciosa em seus anseios porque lhe ensinaram a ser assim

"não fale demais para não incomodar"

os homens – não a ajudaram porque é mulher Elas só queriam ser donas de seus exílios e de suas vozes.



2.


vivo momentos

e aqui na minha frente

nesse bar

uma mulher

vestido estampado

de pinhas em miniatura

batom vermelho

cabelo em coque

se lança

sobre a mesa de sinuca

ensaia um soco no ar


sai pela porta da frente.


_

Julia Neiva é poeta e doutoranda em Literatura pela UERJ.


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