"Não se demore": poema de Patricia Tesch


© Pedro Figueras

não se demore

tio Jair faleceu domingo

Nina quarta retrasada

o pai da Carolina

se foi também

eu não conto desde então

mas não parei esse cerco

da morte

a rede da morte leva gente de arrasto

e traz urgências

com pressa

escrevo um livro de poemas

pinto os quadros da exposição

imaginada

obras-primas de uma vida

quem sabe

com pressa

digo

te amo tenho saudade

me perdoe te perdoo

me perdoo?

com pressa o hoje

vivente duvida

deve continuar sua carne

em outro vivente?

mas a morte

ah

a morte se demora

ela tem tempo

essa dona do relógio do mundo



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Patrícia Tesch nasceu no Rio de Janeiro e é formada em Administração pela UFRJ. Participa de oficinas literárias e, cada vez mais, encontra suas vozes no conto e na poesia. Contribuiu com o poema "À garota de olhos suplicantes no metrô desta manhã de quarta" e com o conto "A Casa da cobra que bate tambor" para a coletânea Parem as máquinas!, do selo Off Flip, em 2020; e com o poema "Chiaro oscuro" para o post Olhar para o outro, na sessão poesia, no blog da Macabéa, em maio de 2020.

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