• Sandrine Robadey Huback

Dois poemas de Sandrine R. Huback


© Unsplash

Paradoxo

Certa vez meu pai me disse

que a vida é assim:

ninguém vive sozinho

ninguém além de mim.

Como uma alma solitária

percorri muitos caminhos

superei minhas tragédias

nunca construí um ninho.

Certa vez minha mãe me disse

que a vida é assim:

todo mundo é muito sozinho

todo mundo além de mim.

Como uma alma partilhada

estive em muitos lares

testemunhei certos elos

fiz parte de alguns pares.

Até que eu percebi que

a vida é assim,

um paradoxo notável:

a companhia e a solidão são irmãs,

caminham sempre lado a lado.


Começa o dia com uma oração.

Ajoelha-se,

fecha os olhos,

segura o terço na mão.

Ainda cedo

aponta o revólver para o maconheiro sentado na entrada

ignora a preta do caixa

fura a fila do pão.

Começa o dia com uma oração.

Ajoelha-se,

fecha os olhos,

segura o terço na mão.

No trabalho

enaltece o seu deus personificado

(mas fala um tanto sobre o diabo)

e ri da morena que é sapatão.

Começa o dia com uma oração.

Ajoelha-se,

fecha os olhos,

segura o terço na mão.

Antes de dormir

alivia a testosterona a uns trocados

e jura amor e cuidado

para a mulher que deita ao seu lado.

Fecha os olhos

segura o livro na mão

e agradece:

Como é bom viver sem pecado!


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Sandrine R. Huback, 32, carioca.

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