De bookworm a designer de livros – entrevista

Atualizado: 16 de Nov de 2019

No Dia Nacional do Designer, entrevistamos Caroline da Silva (27), bacharel em Design Gráfico e Design de Produto pela Faculdade de Campinas (FACAMP). Atuando como designer de livros desde 2016, Caroline é responsável pelas capas originais e projetos gráficos da Macabéa Edições desde seu lançamento, em 2017.


Macabéa Edições Por que design de livros?

Caroline da Silva – Comecei a estudar design pensando em decoração de interiores, mas livros sempre fizeram parte da minha vida. Consequentemente, comecei a me interessar pelo processo gráfico antes mesmo de tomar consciência do que era isso. Foi uma descoberta gradual, que teve seu estopim quando passei, como leitora, por uma fase de clássicos ingleses. Procurando uma edição em português de Orgulho e preconceito que tivesse uma tradução decente e capa e projeto gráfico que se destacassem, e não encontrando nenhuma que atendesse a essa combinação de exigências, decidi – de forma experimental – fazer a minha própria versão da obra da Jane Austen. Como um estalo, percebi que era isso que precisava fazer para a vida inteira e não seria feliz exercendo qualquer outra profissão.


ME Como é o seu processo criativo?

CS – Quando sou informada do título da obra, minha mente já começa a borbulhar de ideias. Idealizo combinações de cores, imagens adequadas para o gênero do livro, um painel semântico. Quando recebo o briefing e o material preparado, leio alguns capítulos. Geralmente percebo que nada é como pensei inicialmente. Nem todos os contratantes são participativos e acessíveis assim, mas, em trabalhos para a Macabéa, discuto minhas ideias com as diretoras editoriais, escolho a tipografia... então começo a diagramação de miolo. A etapa seguinte é a de criação da capa – na qual usualmente repito alguns elementos do miolo. Costumo elaborar algumas versões baseadas no painel semântico. São necessárias idas e vindas até todas as partes envolvidas aprovarem o projeto para a impressão.



ME Conte um pouco sobre as capas que você mais gostou de desenvolver.

CS – Dos meus 264 projetos concluídos, há três que sempre me vêm à memória, com gêneros literários e concepções completamente diferentes, mas especiais em várias particularidades, cada um à sua maneira.

O primeiro é o de Voo: poesias, de Rafaela Paula, uma criação mais ao pé da letra: a capa apresenta uma ave voando em meio a florestas e montanhas, sem destino certo, combinada com a leveza do aquarelado.

Já o objeto na criação de Aresta, de Eduarda Vaz, publicado pela Macabéa, inclusive, eram linhas angulares, que remetessem ao título do livro. No entanto, essa provavelmente será a última percepção do leitor sobre a capa. A primeira é o contraste e harmonia das cores azul e laranja, que provocam um prazer visual sem igual.

Eu contra o sonho, de Henrique Haddefinir, é um livro de que sempre me lembrarei. Dias de pesquisa sobre capas nacionais de romances LGBT+, diversos testes com fundo preto e cores vibrantes (tons de amarelo, vermelho, azul, verde e laranja), as mais variadas combinações tipográficas, sempre tentando fugir do comum. Ao final desse processo, abandonei tudo que havia feito até o momento e comecei do zero com um único pensamento: ser fiel à essência do livro.


MEO que mais te empolga como designer?

CS – A confiança depositada em mim para trazer uma obra à vida. Transformar as ideias de todos os envolvidos – autor e profissionais do livro atuantes naquela edição – em algo concreto.


MEE o que mais te frustra?

CS – Ver o miolo muitas vezes negligenciado por um mesmo designer ou equipe que elaborou cuidadosamente a capa – escolhendo a dedo tipografia, cores, imagens, fotografias.


MEQual é a sua maior referência?

CS – A editora Cosac Naify, fechada em 2014. Cada livro era tratado de forma diferente, desde a concepção da capa até a experimentação tipográfica do miolo.


ME Qual conselho você daria para quem está investindo tempo e estudo para atuar como designer gráfico?

CS – Busque referências de arte, design e arquitetura. São essenciais para definir o tipo de profissional que você se tornará.


MENa Macabéa, só trabalhamos com mulheres – das autoras às profissionais do livro. Como está sendo essa experiência para você?

CS – O mais estimulante para mim, como profissional, é a liberdade de criação e o envolvimento das diretoras e editoras. Fazer propostas e ouvir o feedback, enfim, compartilhar – e mesmo chocar – ideias... é muito enriquecedor, um processo prazeroso, potencializado por estar trabalhando apenas com mulheres, fazendo parte de uma iniciativa de protagonismo feminino. É uma alegria no meu dia a dia. Os diferentes pensamentos de todas as envolvidas se convertem no melhor projeto gráfico que o livro pode ter.


ME Compor a equipe da Macabéa chamou sua atenção para quantas mulheres há na sua estante?

CS – Como leitora e designer de livros, dou preferência a títulos dos quais tenha ouvido boas críticas e que apresentem um projeto gráfico atraente. Sempre li mais escritoras, minhas obras favoritas são de mulheres, talvez por uma questão de identificação e representatividade. Depois da Macabéa, esse processo se tornou mais consciente: hoje priorizo ainda mais mulheres – de Sophie Kinsella a Barbara Black Koltov e Angela Walblinger, passando por Chimamanda Ngozi Adichie, dependendo da minha fase.


MEIndique três livros cujo projeto gráfico você aprecia, priorizando o trabalho de mulheres.

CS – Odisseia, de Homero, pela Cosac Naify. Projeto gráfico de Elaine Ramos e Gabriela Carvalho.

Dom Casmurro, de Machado de Assis, pela Carambaia. Projeto gráfico de Tereza Bettinardi.

Contos completos, fábulas & crônicas decorativas, de Fernando Pessoa, também pela Carambaia. Projeto gráfico do Bloco Gráfico (Gabriela Castro, Gustavo Marchetti e Paulo André Chagas).

Menção honrosa: Pensar com tipos, de Ellen Lupton, pela Cosac Naify. O projeto gráfico é da própria autora e a capa de uma parceria entre a Cosac e a Oficina Tipográfica de São Paulo.



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