• Renata Ferreira

Clarão desassossego: quatro poemas de Renata Ferreira


©Unsplash

bios(escrita)


Prometi que minha poesia não seria autobiográfica/intimista

fiquei impactada com a frase de Clarice em Água viva

"quero ser bio"

mas eu salto nos versos

Num confronto com a alteridade

ignoro o meio, a interdependência

ignoro as vidas que me atravessam

e não toco o político

São forças que não controlo

não consigo abdicar do individualismo extremado

das experiências subjetivas

desimportantes

da banalidade da poesia

Isso pode ser bom

não serei acusada de panfletária

não será minha a responsabilidade político-social do poema

Pura má vontade ou covardia?

não te conto

só sei que o ser político em mim finge brincar de esconde-esconde

e, às vezes, gosta

não corro o risco de ter a cabeça cortada

Lembrei de um conceito do Candido

heterobiografia:

[a história do "eu", do "outro" e da sociedade, simultaneamente]

parece simples, mas não é

não saberia contar essa história

a bios parece ter morrido em mim

(talvez em nós)

Seria este um aspecto da sociedade contemporânea?

tornar oculto o que é comum a todos?

desprezar a experiência coletiva?

a vida política e humana em sua essência?

não saberia responder

afinal, o que pode um poeta?

Hoje, as palavras adoecem

forças destrutivas anulam a consciência e o fazer poético

o que resta escrever?

fragmentos da vida cotidiana quase nua?

poesia sem valor estético-político?

O fato é que minha capacidade de compor foi afetada

tenho dificuldades de dialogar com a trama do mundo

para alguns, não é uma escolha

a relação entre vida, poesia,

história e política

é muito forte

Não estou apta para as exigências da arte

ela não tem limites

não passa de um laboratório de experimentação do domínio

total.


forma de vida


o animal em mim

morto

fede

mas não abandona o corpo

que segue

ereto

na medida do orgulho

os pés

cansados

fingem

uma humanidade

desmedida

enquanto

a cabeça

molde perfeito

sorri

para o inferno que a sustenta


moinho


verto poemas esquizofrênicos

enquanto vomito saudade

tenho medo da perda

lambo o chão

já não sou eu

não sei quem sou

[ele disse: "um dia de cada vez"]

um enorme espaço de tempo

separou o abraço

solidão a dois é mais latente

tritura

tudo


inominável


corpo que mergulha em Quissamã

corpos que caem como chuva dum prédio no Maracanã

ou da ponte mais alta da cidade...

covardia do ser? ou coragem de ser?

desejo tabu de quem está por um triz

palavra de oito letras não cabe no noticiário

não sai da boca, não entra em discussão

presença-ausência dribla olhares desinteressados

doença: cresce sem rumo

por toda parte, ao nosso redor

enquanto vidas: ESVAEM-SE


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Renata Ferreira (@chez_foli), nascida em Duque de Caxias (RJ), é poeta e pesquisadora na área de literatura brasileira. Clarão desassossego, seu primeiro livro de poesia, é um dos lançamentos de 2020 da Patuá e já está disponível em: <https://www.editorapatua.com.br/>.


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