Cartografias do afeto: buscar o presente que ainda virá – para Anna


Anna dos Santos ©

Anna,


“...toda palavra calada…” na verdade é prenúncio de voz, às vezes grito. Alguns tipos de silêncio querem, insistem em nos dizer sobre a intencionalidade dos gritos distintos. Atrás deles há ânsia de estar, buscar eternamente o presente dentro das coisas todas, tocá-las com as mãos. Do silêncio, “poesia de solidão ou de comunhão”. Poeta, quem usa dos dedos para tocar um instrumento, “pensa o céu de cada coisa”, entra por uma via excêntrica da palavra e segue. Nossas ancestrais são na imaterialidade do tempo, poetas, os cabelos brancos das mães, avós, o pisar lento dentro da noite, o ter água boiando nos olhos sem cair são poemas em silêncio.


É seguir estradas ler um poema, "atravessar paisagens", estar com o tempo sem medi-lo e pertencer a ele, às coisas, pessoas, fazendo de cada tecer, passo, gosto, instantes de aprender a ver e sentir, no silêncio que é grito, na palavra que se guarda.


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Buscar o presente que ainda virá


Deixo sempre que o poema me diga como atravessá-lo. Não estabeleço entre nós nenhuma regra, que não seja a viagem, e nisto sigo. Confesso: contemplo cada palavra como uma sagração da primavera e vou dançando entre elas, descobrindo e encontrando um caminho possível entre aquilo que me encanta, me emudece, enfurece, excita, - “toda palavra é crueldade” - me alucina, constrói em mim casa.


Para mim, a ação de ler/escrever um poema sempre perpassa pelo tempo, e com palavras, toda esta coisa absurda que é tocar tudo com as mãos, em um instante no ontem, preso na memória do agora, eclodem. Poetas buscam o presente, eterna busca, mas este presente não está aqui, está no futuro. Por isso, jogamos as cabeças ao vento, estamos no agora, buscando e vivendo o agora, olhando e jogando as primeiras palavras para o futuro.


Quando abri o teu Um rosto morno é uma folga, parei os dedos nas páginas e fiquei por tempo, buscando incerta em teus versos, tateando como quem espera calmamente a realização de um instante que silencie o destino. Dancei, gritei, chorei, e no recanto da memória, o gesto antigo do feitio das tranças no meu cabelo enquanto criança, de girar sozinha no terraço de casa, andar enquanto se olha o céu, até cair. Sensações mornas, vivas, buscadas no presente e na recriação, vividas no passado.


Percebi que teus poemas possuem o magnético, talvez místico, – certeza de ser metafísico – poder de nos silenciar para a posterior contemplação do grito. Leio os teus versos que me emprestam, por instantes incalculáveis as coisas “findas muito mais que lindas” e nos permitem ficar ali, aqui, em cada travessia construída por você. São versos sobre as verdades inteiras, do olhar atento de quem vê na íris de outres, tanto o “abismo maior que nos separa” quanto a presença do “teu nome na ponta da língua”. Percebi o quanto você se dedica a ação primordial de observação das coisas que flutuam no tempo, que se firmam no espaço e agem sobre você de uma maneira única.


Ser “tomada pelo inefável” é ter uma folga de si, deixar que tudo o que te fere, fira fundo. Este é o ponto que me faz ler em diversos momentos Um rosto morno é uma folga e sentir como se ele tivesse sido escrito ao meu lado. Não se trata deste ‘caráter universal’ – inexistente – da poesia, mas sim, a intensidade de quem vive os dias como se estes se mostrassem eternos diante do olhar, gerando uma espécie de letargia, afogamento. O ser, o rosto morno não é somente aquele que “independente ou não de haver gente por perto”, é sozinha, mas também uma fúria “sob sóis quentes” que deseja “invadir os quadros de Van Gogh, uma sede de vida que “não é qualquer copo d’água que mata”, “essa sede é uma sede que é sede do próprio mar”, beber o mar inteiro, na ânsia sempre ativa de buscar com esta “poesia corrosiva”, o presente, o mundo inteiro engolido aos goles esparsos ou o mundo inteiro engolido de uma só vez, no futuro.


Um rosto morno é o estado da cara após o banho, um rosto morno é o estado da cara após a bagunça da cabeça “cheia de insignificâncias”, um rosto morno é o estado da cara no futuro que nem sabemos, mas guardamos nele acidentes, ausências, histórias, nossa ancestralidade real. Inclusive, Anna, é neste poema que os signos do aqui e do agora me mostraram que este “morno” não é somente sobre solidão, é comunhão, sobre este “usar e abusar do verbo provar”, sobre poemas escritos “um pouco antes que o mundo acabe”. Por isto, tem fome e sede em cada página, não adianta fugir, uma vez com os pés no presente, – diante da realidade que nos move e quase mata – as mãos na palavra, sempre haverá o modo de buscar o presente no que ainda virá.


Obrigada pelos versos, Anna. Muito obrigada, que não te falte as imagens no presente para buscar o futuro, nunca. Desta tua leitora, te deixo abraços e toda gratidão, Danuza.


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As aspas são de: Caetano, Mika Andrade, Octavio Paz, Orides Fontela, Ronaldo Ferrito, Drummond, ‘Talismã’, na voz de Bethânia, Gonzaguinha, Maya Angelou e tuas.

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