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Carta para Dilma

Texto que faz parte do livro Um chamado telepático de socorro, de Fernanda Laguna




Para que o amor e a política funcionem é preciso ser valente


Buenos Aires, 4 de setembro de 2010


Olá, eu sei que não nos conhecemos. Ah... antes de mais nada, meu nome é Fernanda. Eu moro em Buenos Aires, na cidade, em um bairro muito lindo chamado La Paternal. Bah... eu acho muito lindo e as pessoas que vêm a minha casa, pra me visitar, também acham. É que o bairro tem muitas árvores (pra o que costuma ter numa cidade) e ruas largas de pedra e calçadas largas e as casas têm muros baixinhos e as pessoas ficam muito na calçada e porque é o bairro das oficinas mecânicas, onde consertam carros e vendem peças. E eu adoro as oficinas cheias de óleo, gosto do sujo, me fascinam suas ferramentas... enfim. Esse é meu bairro e esta sou eu.

Mesmo que você não me conheça e não me veja, esta sou eu. Toda eu aqui. E o mais louco é que quando já não estiver uma parte sequer de mim neste mundo, eu continuarei inteira aqui. E (agora continuo com o que comecei) você é todo o você ao que escrevo, mesmo que não te conheça... porque você está lendo e se você não fosse você já teria abandonado a leitura dessa carta ou nem teria começado.


Robe me disse que ficasse atenta se me ocorresse algo pra apresentar na bienal em apoio a Dilma. E me pareceu uma ideia ESPETACULAR. Eu, em geral (quase diria em sua totalidade), não gosto das bienais. Não gosto da iluminação, nem dos espaços tãããããooooo grandes e essa coisa de algo feito especialmente pra uma bienal. Não sei se nesta haverá ou não, mas também não gosto dos painéis de gesso. Sabe... faz um tempo que me acostumei às luzes de velas e aos espaços sem vidros. As luzes dicroicas irritam os meus olhos e os refletores e os vidros me parecem muito frios e como sempre os deixam muito limpos. Não gosto que TUDO esteja limpo. Mas achei muito divertido este projeto da brigada internacional argentina, ele me excita e me faz gostar de uma bienal.


E bom... eu comecei a pensar coisas pra fazer (não tantas, estou anêmica, por isso minha cabeça não está funcionando bem) e meio que assim um pouco alucinadas. Mas Roberto cortou as minhas asas e me disse que as coisas deveriam ter relação com a política. Ahhhhhhhh... lhe disse. E me lembrei do que aprendi há dois meses, graças a uma vergonha que passei em público (papelão total, péééééssimo), o que é a política. Toda a de-lírica de minhas palavras se viu fulminada por um radical termo: VOTOS (não botox). E não pensem que me ofendi ou disse... ai... olha lá essas aí só pensam em votos. Não, pelo contrário, entendi a lírica dessa palavra (minha lírica). E foi libertador, me livrei de anos de preconceitos e teorias conspiratórias de que os partidos só querem controlar minha mente e me levar como uma zumbi a uma urna. Pra logo partirem minha cabeça com um machado e me jogarem por aí. Não... entendi o contrário, que um voto é uma minicarta com uma mensagem, com uma proposta. Que essa minicarta é enfiada num darkroom pra esperar ser aberta e dizer algo único e mágico. Essa minicarta, essa parte de mim, é a que não tem nome. Carrega uma mensagem muito concreta de algo que importa à parte de mim que são todos. Por isso, não importa quem sou eu. Eu sou igual a qualquer pessoa. Todos perdemos nossos sobrenomes, nossos vários ou poucos bens econômicos, nossas carreiras ou estudos etc., pra nos fundirmos em um único corpo fantástico coletivo. E que lindo! Agora que escrevo isso é a primeira vez que penso a respeito. Ser um envelopezinho sem nome cheio de desejos. Porque uma cédula é um desejo.


Aqui na Argentina temos Cristina como presidenta. E vou confessar a vocês que, a princípio, me dava tanto medo acreditar nela. Até este momento, sempre havia votado na esquerda mais “crítica”, porque num ponto muito inconsciente acreditava que nunca iam me decepcionar, por isso, quase sempre, votei em partidos que não elegeram nenhum deputado. Mas nas eleições passadas sabia que teria que apostar no projeto que vinha impulsionando a Frente para a Vitória. Que deveria dar mais tempo a um projeto pra que fizesse mudanças radicais que nos assegurassem não ser tão facilmente derrubados como país. Bom, tinha que escolher... outra confissão é que eu, mesmo duvidando de tudo (uma paranoia também construída pelos meios), me apaixonei pela cara da candidata. Eu a achava linda (nunca havia confessado a ninguém). Bastava um pôster circular pelas ruas, era o suficiente pra me alegrar a cada quadra com o seu rosto. E esse rosto – pra não pensarem que sou uma idiota – me transmitia algo muito mais importante. Que ela era o que logo foi. Uma mulher inteligente, sensível, comprometida, trabalhadora, com ideais de liberdade e integração. E hoje que ela concretizou projetos incríveis, inimagináveis, no momento em que votei nela, pra minha mentezinha duvidosa e descrente, estou feliz de ter confiado em meus sonhos e de ter colaborado com meu voto pra que tudo isso acontecesse. Bom... não sei se sabem... o casamento igualitário (vocês podem vir casar aqui), a nova lei de meios de comunicação, projetos de educação, o benefício universal por filho, a economia melhorou, a aposentadoria para as donas de casa (minha mãe está feliz da vida), etc., etc.


Há 15 dias... vocês não sabem... me apaixonei. Tremo inteira quando escrevo... por alguém... que não posso dizer (mesmo morrendo de vontade de contar tudo, porque vocês vão gostar assim como eu). Mas só digo uma coisa... por meu melhor amigo (Robe não tenha ciúmes, se houvéssemos nos apaixonado eu teria dito o mesmo). Não acreditam? Eu também não. Mas o que quero dizer com isso é que apesar de estar convencida do que sinto por ele: TENHO PÂNICO DE QUE NÃO DÊ CERTO. Então, se no amor acontece, como não vai rolar que tenhamos medo de que um candidato nos decepcione? Mas para que o amor e a política funcionem é preciso ser valente. É preciso ser muito valente pra confiar. É preciso ser muito valente pra confiar em nossos desejos de felicidade. Por que não dizer isso? Eu desejo ser feliz... e vou conseguir. O coração é uma caixa de sonhos, desejos. Todo tipo de desejos, os que nos levam a uma cilada e os que nos conduzem a situações maravilhosas. E por baixo de todos esses desejos, colados na parede do músculo, está a camada dos desejos mais bonitos. A felicidade, a paz, o AMOR total (tudo isso entendido como festa louca).


Bom... isso está se tornando muito longo... é que me animei... e aqui... Aí vem: Dilma. Pra mim, ela é super importante. Quero dizer que muitos de nós, argentinos, pensamos nisso. Há 10 anos, pra nós, era impensável ver a América do Sul unida e tão forte. Defendendo valores quase utópicos. E Lula, muito esperto, teve um papel fundamental. Digo... não quero lhes contar o que mudou no Brasil... porque imagino que muitos vão pensar: que merda você sabe? E têm absoluta razão. Eu não sei de quase nada... mas sou intuitiva como uma gata (:0). Olha só... eu vejo... Olha só o que é o Brasil... um dos países mais lindos do mundo e agora tão, tão forte. Antes nos fazíamos de superiores, agora também, mas com um pouquinho mais de discrição. É como se o Brasil – país político – tivesse se colocado à altura de sua paisagem. À altura desses morros cheios de vegetação incontrolável, desse mar mais lindo que não sei o quê, que parece que é infinito. Vejam o que é seu litoral... um monstro de milhares de quilômetros de beleza arrasadora. A música que vocês têm, que te coloca em um segundo a flutuar pelo cosmos do presente, as pessoas tão, tão... assim... São incríveis. Eu não sei de nada, mas estive no Brasil muitas vezes e acho que o PT capitalizou as estações da chuva, o calor (não sei como fazem pra suportá-lo) de derreter do Brasil e toda a sexualidade da vegetação. Até dos pântanos levou muito... esses também deram a letra ao PT pra que desse esse tom sóbrio ao Estado. Vejam bem... A Argentina é linda e quase posso dizer a vocês que meu país preferido é o Uruguai. E pra demonstrar meu amor ao Uruguai não encontro nem um quarto dos motivos que encontro no Brasil pra ser o campeão.


É tão difícil viver... isso todos já sabemos, não é necessário nem estar informado pra sentir. E morrer? Um MISTÉRIO que... não pensemos nisso agora, não é mesmo?


Eu, na verdade, não tenho muita ideia sobre Dilma... vi uns videozinhos pelo YouTube e acho que: ah, ela é linda também! Não. Eu digo brincando por mais que seja linda. Um candidato é uma parte de um projeto. Não se esqueçam do que lhes disse do mar... esse mar vai se tornar muito maior quando der a volta na parte que nos toca no continente. Dilma é muito valente e esteve presa vários anos, antes de se formar como economista (gênia), ser secretária da fazenda de cidades como Porto Alegre – que nome lindo – e ser ministra da Energia (alegria) de um país gigantesco como o Brasil. E além disso... não sabem como é lindo ter uma presidenta mulher que te surpreende cada vez com uma roupa diferente e muda de penteados. Aqui dizem a Cristina e, em geral, a todas nós que somos frívolas, que gastamos dinheiro com roupa (?), etc. Nos dizem de tudo. Todas as palavras péssimas estão dirigidas a nós. Um bruxo é algo bacana... uma bruxa, sai de perto! Mas vejam... um dia pensei... se houvesse uma greve de mulheres seria o fim do mundo. Se as mães não dessem de mamar aos bebês, o que aconteceria? De certa forma, aceitamos ser escravas das crianças, a favor do bem comum, pelo futuro. Por isso, nos custa tanto reivindicar, porque sempre estamos fazendo, fazendo, fazendo, fazendo... por isso... bom. Enfim... vou deixando vocês por aqui, porque o fernet com coca está começando a me pegar.


Eu escrevi essa carta e a verdade é que isso me divertiu muito. Nesta segunda, vou com Mariela comprar as folhas que estão aqui sobre a mesa. Escolheremos as mais lindas (conforme nosso gosto), também uns adesivos, lápis de cor, hidrocores e um desodorante bem cheiroso (também pro nosso gosto). Pra que vocês, se quiserem, possam escrever uma carta dirigida a mim, ao você sem nome que nossa cabeça necessita pra não se sentir sozinha. Vamos escrever sobre política, política epistolar. Política de nosso coração com todas as dúvidas e medos que isso implica.


Ai... me desejem sorte no amor. Vejam que tenho 38 anos... quer dizer... não sei. Quer dizer, não lhes pedi nada e, na verdade, tenho 20. Me entendem, não? Bom, de qualquer maneira, me desejem sorte. Ainda assim, apesar de tudo que vivi, me considero uma pessoa de sorte (isso é uma citação de um amigo). Porque me sinto nova pra tentar tudo. Pra acreditar no que eu quiser. É fácil acreditar com o coração punk de uma pessoa de vinte. Aos 40... vamos que somos jovens! Que nossos países são jovens, que, apesar de tudo o que já passaram, somos países com sorte, porque ainda temos a imaginação e a força pra concretizar algo esplêndido. Porque nossos países ainda acreditam na felicidade, na beleza da natureza, na arte, na música feita com um violãozinho por qualquer pessoa em uma praça.


Mando um beijo enorme pra vocês,

Com muito amor.

Fernanda Laguna Bienal de São Paulo, 2010


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