As covas de León – prosa

Atualizado: 19 de Dez de 2019


© G. Morit

Nos últimos meses, paira, em toda a América Latina, o horror. Diante desse cenário, o Clube de Leitura Leia Latinoamérica¹ realiza o corajoso trabalho de convidar um(a) escritor(a), tradutor(a), editor(a) ou profissional relacionado/a ao tema do mês para uma conversa sobre literatura latino-americana. Os encontros acontecem na última semana do mês, na livraria Beco das Letras. Para o encerramento do ano, em 29 de novembro, os/as convidados/as – em sua maioria da Zona Oeste, Baixada Fluminense e Zona Norte do Rio de Janeiro – receberam uma cidade da América Latina sobre a qual escrever, fosse em prosa ou verso. Fui convidada pelo fundador do clube, Wagner Guimarães, para participar da roda de leitura com uma produção sobre a cidade de León, em Nicarágua. Numa pequena livraria no centro da cidade, ficamos próximos, como nunca antes, dos/as nossos/as vizinhos/as.


Sabe-se de uma cidade através dos coveiros. Grandes homens ossudos que carregam a pá e a história entranhada em terra, testemunho da fragilidade que é a vida. Caso adentrasse em León, perguntaria aos coveiros quais são seus mortos. Evocaria o lúgubre, caminhando em procissão até o cemitério mais longínquo, pois é nesse terreno que em vala comum enterram os decretados pelo Estado, os que não merecem enterro, nem flores, nem lágrimas. Agacharia de fronte escancarada ao sol, enfiaria os dedos na terra e entoaria – como um corno a procura de seu gado – canções de um país que desconhece a língua de seus vizinhos. Das semelhanças, León e eu, a colônia. Nós, vestidos por uma roupagem, pedindo esmola aos que se autoproclamavam nossos donos. Mas é da rebeldia, León, que hasteamos nossa revolta. É das ruínas que aprendemos a história de um povo, e é daquilo que fazem com o pó desses destroços que sabemos se devemos permanecer por poucos dias, ou carregar as décadas de tantas vidas em memória.


Me aproximo de León, como uma estranha que carrega o seu retrato – e não se sabe como nem onde conseguiu aquelas fotos –, carrega com curiosidade até o tempo em que não será o suficiente para conter o turbilhão dos desejos. Entro no blog Mundo sem Fim, no qual são narradas visitas a Nicarágua, em que o narrador diz que você, León, foi a cidade preferida de todo um país. Não desconfio em acreditar, já que é dito, entre as linhas extensas, sobre o poeta morto que povoa a cidade com inúmeras estátuas. É para lá que eu vou! Imagino os dias em que poderei recitar meus versos sob a lua minguante numa praça pública abarrotada de gente ávida pela palavra, essa cidade que não decretaria, antes de conhecer meus versos, as palavras vagabunda, abobalhada, sonhadora, mas, sim, uma poeta digna de um enterro, de museus em minha memória, de orgulho. Me recomponho, estremeço, penso que se cuidam de seus mortos construindo museus e estátuas, se cuidam de seus poetas com tamanho saudosismo, quem dirá os que recitam seus versos ainda em vida. Por onde andam as poetas de León? Será que declamam como aventureiras à beira do vulcão Cerro Negro? Ou se amontoam nas ruínas de León Viejo? Onde estão suas poetas vivas, León? Descansam com os pés descalços no telhado feito de casca de ovo em sua catedral?


Aqui em minha cidade as luzes ofuscam o céu estrelado, respiro um ar de concreto e mau hálito do lobo que espreita o próximo. Os que morrem e que são enterrados, acinzentados, apodrecem pelo calor dos dias. Não há tréguas, as cápsulas perfuram o peito das poetas. Tenho saudades dos minutos que passei por León. Agora os carunchos infestam os livros, os retratos, as palavras perfuradas pela praga. Quando coloco a terra de minha cidade entre os dedos, agarro sempre uma minhoca parruda, então, com esperança, creio que em breve até os cadáveres de hoje servirão de calcário para as gerações que habitarão nossos cemitérios, León. As abóbodas das nossas igrejas construídas na época da colônia ainda estão intactas, os quebradiços somos nós, que enfrentamos o estigma da moeda mais barata, em que estrangeiros montam em nossas couraças. A ampulheta continua a contagem das nossas bisavós, avós, filhas. Giramos a engrenagem das cidades delimitadas no mapa. Os geógrafos dirão que León e eu estamos a quilômetros de distância, mal sabem eles que fizemos amor por telepatia.



¹ Ver: < https://www.facebook.com/leialatinoamerica/ >.

60 visualizações