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Café — prosa


Henry P. Glass ©


— Sabia que para essa garrafa térmica é necessário apenas três colheres medidoras?, disse ele.


— Verdade?, respondeu ela dando um ar de importância fingida.


— Sim, principalmente se for o extra forte com o tradicional, apenas quatro colheres. Dizia ele com toda a pompa de um pseudo barista.


Ela, na primeira vez que ouviu a frase, pensou que fosse para impressioná-la, mas com o tempo, descobriu que aquilo era um padrão que o deixava confortável. Confortabilidade era imprescindível na relação entre ambos. A hora do café seria um desses momentos de conforto. Não eram apenas grãos torrados e embalados a vácuo. Casa limpa, final de tarde, sentados à mesa da cozinha, o papear sobre coisas cotidianas entre um gole e outro, uma mordiscada no biscoitinho de nata, ali habitava a cumplicidade. Em alguns momentos a conversa se extinguia, ficando apenas o silêncio e o aroma perfumando o ambiente. Apenas os dois, observando um ao outro e o pôr-do-sol que batia no azulejo. Em outros dias, o café complementava conversas sérias sobre trabalho, vida, pessoas, e família. Nos dias em que ela chegava do trabalho mais cedo, o café era feito sem as medições estabelecidas, afinal, seu trabalho era com as palavras, o dele é que era com os números. Os dias da faxina eram sempre especiais, o comando do fogão pertencia a ele e ambos, completamente exaustos após a limpeza doméstica, absorviam todas as benesses da bebida amarronzada e quente, possibilitando a contemplação maior do que tinham de mais genuíno: a cumplicidade silenciosa. 


E foi num dia da faxina, ao som de Baby, na linda voz de Gal, que ela se meteu a “rebelde” e pilotou o fogão na hora do café e o fez sem as medidas exatas, apenas de olho.


— O café tá pronto!, chamou. 


Ela queria ver se o pseudo barista, iria reparar na diferença das colheres postas. Ele sentou-se à mesa e deu um gole profundo.


— Nossa, o café está delicioso!, disse de olhos fechados, como se estivesse ativando todos os sentidos.


Ela teve vontade de dar uma gargalhada e refutar toda a metodologia das medições, mas se segurou e continuaram com as conversas habituais. Passado um tempo, o pôr-do-sol batendo no azulejo, o silêncio da contemplação e ele interrompe dizendo:


— Quer casar comigo?


Nesse instante, a vitrola avisava: já era hora de virar o LP.






Luzia Rocha é graduada em Letras (Português/Literatura) e especialista em Literatura Brasileira pela UERJ. Já publicou textos em algumas revistas literárias. É criadora do clube de leitura litteraesamba. Em 2010, criou o blog Considerações contemporâneas (consideracontemporaneas.blogspot.com). Em 2023, publicou um conto na Antologia Nós: textos de autoria feminina (Selo Off-flip) e foi uma das selecionadas para fazer parte do livro 37 Escritoras Neolatinas Contemporâneas (Revista Philos).

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