"Solfejo de Eros": cinco poemas de Anna Apolinário



Two pupils in greek dress - © Thomas Eakins, 1883 (editado)


Sylvia queima


Vênus da alcova, Sílfide messalina

Viciada em adesivos de nicotina

Insone & neurastênica, dopada e deprimida

Permita-me lamber sua iconoclastia


Mariposa de danças noturnas

Fênix feérica, Noiva da Morte

Godiva

Camélia rubra,

Jorrando seu perfume que asfixia.


Me põe nos lábios o vinho

Docemente demoníaco

Teus versos são belos crimes

Sinfonia de gozos e guizos

Teu punhal de palavras

Fogo que dança pelo meu corpo.


*


Palavra de Pandora


Concubina francesa n’alcova

Vandalizando devires e sensações

Eu sou a mulher vestida com o sol de Salvador Dalí

Meu ventre sangra rosas espessas de lirismo

Tenho o retrato da Beleza

Queimando numa fornalha de mescalina

E Pandora parindo belezas vis.


A terceira passagem do crepúsculo se aproxima

Minhas veias já foram abertas,

E derramam punhados de flores e foices

Minha verve deflagra o gozo

E a palavra ecoa pelos céus convulsos

Sinfonia gutural que desenha vórtices no Absurdo.


*


Dédalo


Absinto agridoce promíscuo,

Veneno derramado no coração da Noite

Teu amor é uma rosa partida

Pétala desfalecida do meu verso mais solferino


Os meus olhos estão cheios de gana

Por ti, meu desejo embevecido,

A doçura bruta da lascívia,

Rompendo silêncios de sinfonia do universo

Caleidoscópio lírico, circo metafísico.


Que toda embriaguez seja enaltecida

Condecorada no deleite da poesia

Faz-te meu amante, poeta, louco, libertino

Enquanto eu desfaço sonhos,

Como quem fabrica estrelas

Na vertigem da boemia.


Bendita serpente do Éden esquecido Solfejou um ardente soneto Espalhando a semente

No outono da tua noite entediada

Lisergia de versos paixões & enigmas.


Deixa-me suspirar um gozo, entorpecida Como uma flor de cor escarlate perdida No jardim da tua carne perfumada Orvalhada pelo meu feitiço

Pervertido & pagão.



Permita que minha língua

Confabule em teus pulmões frívolos,

Põe-te a gosto,

Degusta,

Dos delírios dodecassílabos escondidos

Nas voltas do meu vestido.


*


A Espiral do desencanto


O mundo fervia em tecnicolor Ela sonhava em preto & branco Era Maria da Saudade que nascia No peito dela já batia

O fantasma mecânico do amor Eu sou o teu olho que enlouqueceu na Bósnia

Pedindo lobotomia imediata & chá de fita Fêmeas de Eros, filhos de Dionísio Eu sou Ulisses em cólera sagrada Sou Loreley nos teus ouvidos Eu sou o Sol morrendo na maquinaria do mundo Beijo-te, em face de toda divina Dor, Tua boca sabe ao doce de um demônio chamado Amor Um pingente de gelo para a poetisa arsonista

A bailarina com metafísica faz um círculo no chão,

Crescem girassóis no meu vestido


*


Sinfonia imaginária


Ela põe um beijo fálico Em minha face, lira líquida Traz um sino de vertigem Jubiloso sigilo Vejo esse ganido na madrugada: é um demônio verde a levantar meu vestido

Emudeçamos todo desassossego Com árias dadaístas Um canto corpóreo, partitura de agonias O noviciado do gozo, xamanismo Está escrito no Livro primeiro do uivo que iluminou Buda: minha vênus profética vulvando em teu falo que confabula

O inventário do tempo Foi comungar no Cabaré Místico É teu verso? Delira-mo Sem paletó de poeta pixote Derrama teu inaudito vinho, menino lírico Azulei para um verde em dó maior Encontre-me aquém do verbo

Os ciganos esconderam a Loucura No espartilho da musa Um piano turbulento anuncia O êxtase dos anjos, canção apocalíptica Sob o dossel do silêncio Vejo-o enfim átomo Infinito unido ao balé de meu delta Os olhos do Sonho solfejam o delírio: uma sinfonia imaginária para o amante metafísico



_

Anna Apolinário (Paraíba, 1986) é poeta, licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba, especialista em Gestão Educacional e Criatividade, Língua, Linguagem e Literatura. Produtora cultural e organizadora do Sarau Selváticas. Estreou em 2010, com Solfejo de Eros (Câmara Brasileira de Jovens Escritores). Em seguida, vieram Mistrais (Prêmio Literário Augusto dos Anjos, Edições Funesc, 2014), Zarabatana (Editora Patuá, 2016), Magmáticas Medusas (Editora Cintra/ARC Edições, 2018) e A Chave Selvagem do Sonho (Triluna, 2020). Participou das antologias Ventre Urbano (Penalux, 2016), Um girassol nos teus cabelos – Poemas para Marielle Franco (Quintal Edições/Mulherio das Letras, 2018), Sob a pele da língua: breviário poético brasileiro (Cintra/ARC Edições, 2019), Senhoras Obscenas (Patuá, 2019). É autora integrante do poema surrealista coletivo "Las máscaras del aire" (Cintra/ARC Edições, 2020). Reside em João Pessoa.





74 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo