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Porra, Santo Antônio!

Conto que faz parte de Santuário, romance híbrido de Maya Falks. Leia na íntegra a seguir.



Maya Falks ©

Ritinha tinha uns doze anos quando Rejane, sua mãe, pendurou Santo Antônio de cabeça para baixo no pequeno altar na sala de casa. Se aquela estátua de resina fosse um homem de verdade, certamente teria perdido as pernas para necrose e tido uma hemorragia cerebral. Mas não havia quem convencesse Rejane a resgatar a pobre estátua, embora a cena do homenzinho pendurado fosse realmente perturbadora.

Ritinha só achava ridículo. Até parece que manter um pedaço de resina pendurado por anos resultaria em casamento! Ainda mais que começou a palhaçada antes de descer sua primeira menstruação. Nem padre Estácio conseguiu convencer Rejane, beata convicta, de pelo menos esperar a maioridade da menina.

‒ Me desculpe, padre, mas hoje em dia as meninas tão saidinhas. Cê não soube da irmã do seminarista? Virou puta! Deus que me livre minha Ritinha solteira!

‒ Mas, dona Rejane, Ritinha ainda é uma menina. Terei que orar pra que essa estátua se quebre de tanto ficar pendurada?

‒ Cruz credo, padre Estácio, não reza pra uma desgraceira dessa, não. Minha Ritinha precisa de um caminho certo, correto e cristão nesta vida, não posso perder minha garotinha pra este mundo desvalido!

‒ Ave Maria! – resmungava o velho padre Estácio, antes de deixar a mulher a sós com suas orações.

Rejane tinha uma fé inabalável no Santo Antônio pendurado de cabeça para baixo, principalmente depois que ela e suas irmãs caipiras fizeram o que ela considerava ótimos casamentos.

Ótimos casamentos, mãe? Tio Alcides bate na tia Ronalda todos os dias, tio Reinaldo tem umas seis ou sete amantes, o papai bebia feito carro velho e era a alegria do boteco do Pinga, que só não faliu porque o papai sustentava ele antes de deixar a gente. O que tem de ótimo nisso?!

‒ Ara, Rita de Cássia Junqueira Fernandez, cê não entende de um nada dessa vida! Cê já esteve no Matagal?

‒ Afe, mãe, o Matagal é só a zona rural de Santuário, que que tem de errado com isso?

‒ O Matagal é bom lugar sim, tirando aquela família, que Deus a tenha, que a única menina virou puta, eu tô falando de mais além...

‒ Para, peraí, mãe. Cê tá falando daquela família que morreu toda num incêndio?

‒ Sim, sim, essa mesma.

‒ A família toda morreu num incêndio e você trata como tragédia a menina ter virado puta? Pois eu preferia virar puta a morrer queimada!

Rejane imediatamente quase virou a cara da filha do avesso com um tabefe.

– Cala essa boca, Ritinha! Antes filha morta do que filha que se vende pros home!

‒ Cê bateu forte, mãe! – choramingou Ritinha.

‒ Bati, sim! Agora me escuta, sua desavergonhada. Pra lá além do Matagal, quase na fronteira da barragem das minas, onde tem o lixão, tem uma vila pequena, com uma dezena ou um pouco mais de casinhas miseráveis feitas de resto de madeira recolhido do lixão ou pelas estradas de chão. Essa é a vila do Urubu, e ela ganhou esse nome porque quem vive lá morre lá, no meio da rua, e não tem espaço em cemitério nenhum.

‒ Parece realmente ruim. Nunca tinha ouvido falar, mas o que é que essa vila tem a ver com o Santo Antônio pendurado?

‒ Eu vim de lá, minha filha. Eu e suas tias. A gente era miúda de fome. Daí a gente pendurou um santo pra cada uma e viemos na igreja, na romaria. A festa de Nossa Senhora era o único momento do ano que a gente podia usar roupa bonita, porque cada uma de nós só tinha uma. E foi assim que a gente conheceu nossos maridos.

Ritinha refletiu. Não entendia muito bem o que a mãe falava ‒ ela já nascera em Santuário, nunca lhe faltaram roupas, frequentava a escola e a igreja com a mãe. Não entendia de miséria, embora estivessem longe de serem ricas. Em Santuário quase ninguém era.

‒ Casamento ruim é melhor que morrer na vila do Urubu, entendi, mãe, e lamento que essa vila exista, que as pessoas vivam desse jeito, mas não é a minha realidade, não é mesmo?

‒ Não, a sua realidade é que as meninas engravidam aos treze anos ou viram putas! – Rejane levantava os braços em gestos escandalosos e, francamente, completamente sem sentido. Ritinha, jogada no sofá da sala, só suspirava.

‒ Deixa de exagero, mãe. Eu sei que tivemos casos de meninas engravidando, mas foram só algumas, e nenhum menino da minha escola me interessa, então eu não vou ficar grávida. Nem vou virar puta, pode ficar tranquila e desamarrar o coitado do santo.

‒ Quero ver você CA-SA-DA! Toda linda, de branco, no altar do padre Estácio.

‒ Ara, mãe, padre Estácio nem aceita me fazer um casamento com treze anos. Faz um ano que o santo tá de ponta-cabeça. Deixa de besteira, nem tenho idade pra gostar de home.

‒ O santo fica. Só sai quando tiver noiva.

‒ Ara, inferno! – E, de novo, o rosto de Ritinha é virado com força por um tapa da mãe.

‒ Nunca, nunquinha, fala uma palavra dessa na frente do nosso altar que tem a Virgem, Jesus crucificado e o santo que vai salvar sua vida, menina! Tenha um pouco de respeito!

Ritinha correu para o quarto e chorou. Chorou a noite toda. Pensou um tanto na história que a mãe tinha contado, sobre a vila do Urubu, de que jamais ouvira antes. Pensou na infelicidade da mãe e das tias com maridos imprestáveis e violentos. Pensou na sua juventude e no quanto não queria se casar, e pensou mais ainda no quanto detestava todos os homens que conhecia.

Será que a mãe tinha alguma razão? Será que era melhor se casar com o primeiro homem que se dispusesse? Então lembrou que um casamento exige certas intimidades e chorou de novo.

No dia seguinte, ao final da aula, foi conversar com a conselheira pedagógica da escola, confusa e um tanto triste com toda a situação.

‒ Dona Odete, a senhora sabe do santo da minha casa, não sabe?

‒ Claro que sei, Ritinha! Acho tão bonito uma mãe tão preocupada com o futuro da filha! – Odete, uma senhora de óculos de lentes grossas, era outra beata convicta que estava lá desde o começo dos tempos. Se duvidar tinha testemunhado ela mesma a crucificação de Cristo.

‒ Mas, dona Odete, eu só tenho treze anos!

‒ Já desceu o sangue?

Ritinha se revirou na cadeira, desconfortável.

– Já...

‒ Então não é cedo. No meu tempo, nessa idade a gente já casava pra não correr o risco de ficar pra titia!

‒ Nunca vi aliança no seu dedo... A senhora é casada?

Odete tremeu.

– Eu fiquei pra titia. – Uma lágrima escapou de trás de sua lente grossa, carregando consigo um naco de rímel. – Se dê por satisfeita que sua mãe se preocupa e já pendurou o santo, menina!

‒ Mas eu não gosto de nenhum menino!

‒ Você deveria ir imediatamente na igreja se confessar com o padre Estácio sobre essa sua rebeldia!

‒ Afe.

Ritinha saiu da sala batendo as tamancas. Estava sozinha, definitivamente. Seu jeito incomodava as outras meninas, e ela tinha dificuldade de fazer amigas. Tudo em Santuário girava em torno da igreja e do catolicismo. Ela sabia de um canto da cidade onde existiam outras crenças, mas jamais fora autorizada a chegar perto; de qualquer maneira, não era de religião que ela precisava, era de uma saída para não ser encontrada por homem nenhum.

Já na portaria da escola, Rita ouviu seu nome e virou para trás. Era Pâmela, a recepcionista do setor administrativo da escola. Pâmela era jovem, não tinha mais do que vinte anos, cresceu em cidade grande e foi para Santuário buscando calmaria. Tinha o ar jovial que devia ter para combinar com a idade e que não era fácil de encontrar por ali, onde tudo parecia muito antiquado.

‒ Você tem um minuto? – indagou Pâmela.

‒ Tenho vários.

‒ Excelente. É meu intervalo. Vamos tomar um sorvete?

‒ Pode ser...

A sorveteria que vendia somente três sabores ficava exatamente do outro lado da rua. As duas moças se acomodaram em um banco de pedra.

‒ A história do santo pendurado pela sua mãe já virou folclore por aqui. Sabe disso, né?

‒ Já virou piada, você quer dizer.

‒ Já vi você falando que o problema do santo não é somente você ser novinha, mas também não gostar de nenhum menino.

‒ É, não gosto. Os meninos são tão bobos...

‒ Você nunca se interessou por menino nenhum?

‒ Não, nunca.

‒ E quanto às meninas?

‒ O que tem elas?

‒ Já se interessou por alguma?

Ritinha estremeceu. Seu corpo inteiro chacoalhava. Como assim, se interessar por meninas? Isso sequer era possível?

‒ Mas... eu sou menina! – falou ela ainda um tanto chocada.

‒ Sim, isso não te impede de gostar de meninas.

Ritinha, sem saber como reagir, saiu correndo, deixando para trás o sorvete de creme já derretido. Pâmela entendia a confusão, passara pelo mesmo anos antes. A diferença é que não vinha de uma família tão religiosa, de uma cidade conservadora. Sabia que o caminho de Ritinha seria mais complicado.

Foram dias fechada em seus próprios pensamentos, entendendo o que sentia quando Lúcia, sua colega de classe, se aproximava, ou o quanto detestava quando algum menino reparava nas mudanças do seu corpo. Então era possível gostar de meninas? Seria um sinal de Santo Antônio de que o destino dela era diferente do da mãe e das tias?

Aos catorze, com o santo ainda pendurado no altar, Ritinha resolveu perguntar para a mãe.

‒ Mãe, para meninas que gostam de meninas, o ritual pra casamento do santo é o mesmo?

‒ Como assim?

‒ É que eu não gosto de meninos, eu gosto de meninas, daí fiquei pensando que o ritual pode estar todo errado por isso. Não era melhor perguntar pro padre?

Rejane se calou por um instante. Aparentando calma, sentou-se no sofá ao lado da filha e a segurou pelos braços, com mais força do que se esperaria em uma conversa entre mãe e filha.

‒ Que história é essa, Rita?

‒ Eu não gosto de meninos, mãe.

‒ Isso não tem nada a ver com gostar de meninas, Rita de Cássia, isso tem a ver com não ter encontrado o homem certo ainda! Você ficou doente na última romaria, não teve a oportunidade de conhecer os romeiros na festa, é só isso. Para com essa bobagem!

‒ Não, mãe, não é bobagem. A Pâmela, lá da escola, tem uma namorada. Ela me disse que pode acontecer de meninas gostarem de meninas!

‒ NÃO PODE, NÃO, ESTÁ ME OUVINDO? – Rejane, dessa vez, não parou no primeiro tapa, ignorando os gritos da menina. – É O DIABO QUE ESTÁ SOPRANDO NO SEU OUVIDO, E EU NÃO VOU DEIXAR ISSO ACONTECER!

Ritinha não sabia dizer ao certo quanto tempo a surra durou, mas não foi pouco. Ao final, machucada por fora e por dentro, Ritinha só tinha uma certeza: queria morrer.

Por causa dos machucados, ficou duas semanas sem ir à aula. Soube, pelo falatório típico de cidade pequena, que Pâmela foi demitida no dia seguinte à surra e já não morava mais em Santuário. Ritinha chorou, sentiu o peso da culpa, e todas as dores do mundo viraram suas companheiras inseparáveis ao longo dos anos em que foi castigada com o isolamento. Não tinha ninguém na escola e, na rua, o máximo que podia fazer era ir à igreja.

Rejane via a filha definhando. Não abria mão do castigo por medo das influências ruins que a menina poderia sofrer, então presenteava-lhe com filmes e livros com histórias românticas e roupas que poderia usar com seu namorado, quando ele surgisse. Contava histórias de casais famosos, propunha atividades criativas, como o planejamento do vestido de noiva ou da decoração do casamento. Nada fazia Ritinha sorrir.

‒ Ritinha, minha princesinha, eu não aguento mais te ver nesse estado... – resmungou Rejane.

‒ Eu não aguento mais viver, mamãe...

‒ Não fale uma bobagem dessa, menina! Suicídio é um grande pecado!

‒ Tudo é, mamãe!

‒ Não, acho que é hora de uma conversa com o padre! – “Padre Estácio, um padre bem velhinho, ótima ideia”, pensou Rita, já sem forças para seguir a vida.

Em cinco minutos estavam as duas dentro da igreja, onde padre Estácio se despedia dos fiéis logo após o término da missa. Rejane, que vinha conversando com o padre há tempos e fora convencida por ele a não forçar um casamento à Rita ainda tão nova, já chegou introduzindo o assunto da pior maneira possível.

‒ Padre Estácio, o senhor é nossa única saída! O diabo está na cabeça de minha Ritinha, colocando ideias demoníacas de homossexualismo e suicídio! Olha os caminhos tortos pra que o diabo tem levado minha garotinha! Tem como fazer um exorcismo?

Rita arregalou os olhos, o padre riu.

– Não é caso pra exorcismo, dona Rejane. Não há diabo algum envolvido aqui. O que temos é uma garota se descobrindo e descobrindo junto o peso da solidão e da depressão, mais nada.

‒ Mas, padre, Ritinha falou de gostar de meninas e...

‒ Dona Rejane, eu sou de tempos ainda mais passados que a senhora, isso tudo me causa um grande estranhamento também, mas o que me deixa mais chocado é o quanto permitimos que pessoas sejam infelizes, morram e se matem por isso. Que diferença faz pra senhora se sua filha gosta de meninas?

‒ Mas... mas... – Rejane estava chocada. Ritinha mais ainda, mas sorria por dentro.

‒ Antes de ser padre, eu também amei. Nos meus tempos, quando nossos pais decidiam qual dos filhos seria padre não tinha volta. Eu fui o escolhido, mas conheci uma mocinha que estremeceu meu coração. Eu a amava mais do que tudo, e ela a mim, mas eu devia uma obediência cega aos meus pais e aceitei calado abrir mão desse amor pela batina. Carreguei esse aperto comigo durante todo o tempo que fui missionário, bem longe de Santuário. Conheci gente de todos os tipos, credos, culturas, e fui entendendo que o mundo é grande demais pra uma cabeça pequena. Quando voltei a Santuário para assumir de vez a igreja, eu a reencontrei. Ela seguia católica, mas já não vinha à missa porque culpava a igreja pela nossa separação. Ela nunca foi realmente feliz. Nem eu, apesar de ter abraçado com amor o meu ofício. E espero que Deus e ela, que já nos deixou, me perdoem por não ter lutado por nós.

‒ Padre, mas tem que ser mulher com homem! O senhor pelo menos se apaixonou por uma mulher!

‒ Livre arbítrio, dona Rejane. Se Deus condenar, será uma questão entre Ritinha e Deus.

‒ Eu me sinto culpada, padre, a mamãe casou com um beberrão pra poder sair da vila do Urubu e... – Ritinha parou ao reparar que a mãe se encolhia e o padre mudava a expressão do rosto.

‒ Dona Rejane.... – começou o padre com uma expressão sombria.

‒ É uma fábula, padre... – justificou-se Rejane, sem graça.

‒ Não, dona Rejane, é uma mentira.

‒ Espera, como assim? – interrompeu Rita.

‒ Existem muitos lugares no mundo que são como sua mãe descreveu a vila do Urubu, mas essa vila especificamente não existe. Depois do Matagal já é outro município, e sua mãe nunca viveu na miséria. Ela e suas tias casaram com pressa porque queriam ser as primeiras entre as amigas, apenas isso.

‒ Mãe?! – Rita estava de olhos arregalados. – Mãe, a senhora mentiu pra mim esses anos todos? – Rejane não respondeu. – Mãe, eu passei anos me culpando por não querer o mesmo sacrifício que você fez, mas achando que eu devia aceitar por causa da sua infância difícil! Mãe, me diz alguma coisa! – Rita gritava e seu desespero ecoava na igreja, mas o padre não a censurou.

‒ Rita, por favor, tudo o que eu faço é por amor a você!

‒ Que tipo de amor é esse seu que mente pra mim, me coloca de castigo por anos, tenta me impedir de ser quem eu sou, me leva a querer tirar minha própria vida? Que grande amor é esse?

‒ Jesus deu a vida por nós, Ritinha, foi um grande sacrifício, todos fazemos sacrifícios!

‒ Dona Rejane, a senhora está interpretando o sacrifício de Jesus de forma errada... – interrompeu o padre, abraçando uma Ritinha em prantos. – Jesus morreu para que fôssemos livres. Achas justo sacrificar a felicidade dela por uma interpretação sua sobre a morte de Cristo?

‒ Eu também me sacrifiquei, padre! Não foi nada fácil a vida ao lado de um alcoólatra que nos trocou por outra mulher!

‒ Seu casamento não foi um sacrifício, foi uma escolha sua. Eu estou velho, mas lembro que conversamos sobre isso. Eu sabia que você era uma moça direita e ele não, lembra-se disso?

‒ Lembro, padre... mas menina com menina é pecado...

‒ Mentir também é.

‒ Perdão, padre... – sussurrou Rejane.

‒ Não é a mim que você deve esse pedido. A garota está há três anos de castigo por algo que está fora do controle dela, e aquela estátua de resina segue pendurada de ponta-cabeça. Pense no assunto. E não esqueça que temos que começar a organizar a festa de Nossa Senhora, a romaria é no mês que vem.

‒ Não esquecerei, padre... – Rejane estava envergonhada e saiu lentamente da igreja, acompanhada de Rita, esta aliviada.

No mês seguinte, durante a festa na praça da igreja, Rejane atendia em uma tenda de água e refrigerante enquanto Rita dançava os hinos à santa junto com as centenas de visitantes que lotavam Santuário todo ano. Nas últimas missas, o padre fizera questão de enfatizar o respeito e a tolerância. Rejane chorava todos os dias pedindo a Deus que Rita mudasse de ideia e tinha esperança de que a romaria trouxesse um bom homem para ela.

E foi no meio da praça que Rita a viu. Não devia ter mais do que dezoito ou dezenove anos, cabelos trançados emoldurando um rosto perfeito de cor de chocolate. Ela usava um batom vermelho que combinava com o casaco e a fazia parecer Nossa Senhora Aparecida, a santa negra. Rita se desmanchou com aquele sorriso e com as tranças que voavam no ar enquanto ela rodava. Rejane percebeu. Entre tantos rapazes vistosos, Rita brilhava os olhos para aquela moça.

Ela era linda. Mais do que isso, ela era a personificação dos sonhos mais felizes de Rita. E ela percebeu os olhares. Rita, tímida, virou o rosto. A moça sorriu o sorriso mais lindo que Rita já havia visto e ela não conseguiu mais parar de encará-la. A moça se aproximou.

‒ Oi, sou Carolina, e você?

‒ Rita. Devota de Nossa Senhora?

‒ Nossa Senhora Aparecida. Minha primeira vez nesta romaria. Sou mais dos orixás, mas achei que a romaria poderia ser interessante. Você é daqui?

‒ Sou, e você?

‒ Venho de Santa Cecília, dá uns sessenta quilômetros, mais ou menos.

‒ Não conheço. Mas bem-vinda a Santuário.

‒ Obrigada!

Rejane, com o coração apertado, falou para si mesma:

‒ Conceda-me serenidade para aceitar o que não posso mudar.

Rita estava feliz, era evidente. Rejane não tinha escolha, era a felicidade de sua filha amada que estava em jogo. Não seria fácil, mas ela teria que aceitar.

‒ Uau, temos uma sósia de Nossa Senhora Aparecida em nossa festa! – exclamou Rejane, com uma alegria forçada, aproximando-se das duas meninas.

‒ Mãe, essa é Carolina.

‒ Oi, Carolina, eu sou Rejane, mãe da Rita. Você é muito bonita.

Ao longe, padre Estácio observava e enxergava no olhar de Rita o mesmo brilho que tinha em seus próprios olhos quando lembrava de sua mocinha.

Naquela noite, enquanto Rita e Carolina conversavam no portão da casa, Rejane desamarrou o Santo Antônio. Segurando o santo já meio desfigurado na mão, falou seu primeiro palavrão.

‒ Porra, Santo Antônio! – E gargalhou. Sentia-se estranhamente leve. E feliz. Do lado de fora, Rita sentia o mesmo. E Carolina também.






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