O coice da égua: quatro poemas de Valeska Torres






Carne de sol em charque estendida ao sol salga os olhos dedos encardidos estouram-se bolhas debaixo dos pés quando se justo fosse seriam sabões a primeira infância já adulta mata-se o que um dia se teve mas o que nunca se teve não morre na avenida brás de pina garotos em malabares empinam limões observados pela vidraça da palio prata as carnes estendidas no varal ao sol tosco do dia



Dois filhos bantos


Miro o arco e a flecha cai sobre o peito daquilo que já foi um índio que agora segura o fuzil aponta a bala daquilo que já foi um escravo, a preta aponta um facão daquilo que já foi um branco, de tudo aquilo que já foram restaram a dor de uma vingança que nunca mais será. Do nunca resta o que já foi um dia, nós antes de nós selvagens naquilo que já foi dito nada. E da vida que surgiu naquele dia, nenhuma morte há de nos salvar. E da morte que surgiu naquele dia, nenhuma vida há de vingar.


O ronco da moto atravessa varado feito bicho do mato ferido. Acuada, fecho o cenho e o punho firme, vou de encontro ao corpo que me aponta o calibre. Dois filhos bantos, da mesma raça celebrando o ódio lascando a pedra já lascada. Dois filhos bantos, de ventre preta que se esfolam pela mixaria.

E rindo, caminha entre eles um velho inimigo.


Carrega um charuto envolto num chicote, batendo as botas são olhos de maçarico. Sai de dentro da mata atlântica, junto a ele uma virgem. Pele dela é feito a minha, ele ralha – cabocla cala a boca e se veste boazinha. Capataz, saltita em passos largos, encarando a ferida. Não entende o banzo dentro dos olhos das vítimas.

Entre o corpo calibre e o punho firme, não se intromete pelo que está feito daquilo que lhe foi incumbido.


São dois filhos bantos, que cantaram sob o sol ao som do berimbau, se matam hoje em Manguinhos, ao troco do capital.



De xereca para xereca


convenhamos que 850g de coxa e sobrecoxa na tevê nunca fez tão altas inflações anitta rebolando a raba nunca fez tanto homi bater punheta sentado sozinho atrás do computador num quarto escuro. como se corpos fossem notícias o suicídio se vincula em selfies de mulheres em pornôs a massa se fode dentro de um ônibus lotado roçar da pica na bunda da mulher. quem amou sandra violentada dentro de um ônibus rodoviário?

quem amou anitta nas fotos de 2009 sem botox nos lábios?


⚠️ chapinha e secador só se é usado com os aparelhos desligados ⚠️ senão, explodem disjuntores de quarteirões afora para que nós, tenhamos cabelos arrumados e depois taquemos talco para que o cabelo não cheire a formol para que a boca não cheire a formol para que a saia não cheire a formol porque

ninguém quer uma mulher malcheirosa do lado nenhum homem quer uma mulher que cheire a formol antes do vestido usado no caixão.



(INSIRA UMA FRASE DE EVA PERÓN)


para a Argentina

do bico do

peito há

os que mamam em grandes tetas


o pingo de leite

branco sobre a hispano américa amedrontada


sombra-nos:

1. farelos,

2. chupar os dedos,

3. pedaços de alfajor caídos sob o tapete do vizinho


aos que não tomam leite

– esses que infestam a cidade com cartazes de desaparecidos – resta-lhes

o café preto amargo


trepamos sobre essa

cama, mas não nos

lambemos tampouco

partilhamos nossas

línguas falta-nos

salivas

a cerveja, o matte dividimos no poema

após um pancho entre Catamarca y Sarmiento


da goela o pollo descendo

abaixo até o

engasgo

yo soy soy yo


a balsa que atraca no rio

Paraná a faca que corta o

pão massudo dentro

salsicha temperada de salsa crioulla.




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Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, em 1996. Cursa o bacharelado em biblioteconomia na Unirio. Participou do Festival Internacional de Poesia do Rosário, em 2017, na Argentina. Tem poemas publicados em diversas plataformas virtuais, fanzines e coletâneas no Brasil e no exterior. O coice da égua (2019) é seu primeiro livro.


Adquira o livro: http://www.7letras.com.br/o-coice-da-egua.html.

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