top of page

Consumação – prosa


Keith Haring ©


Tem horas que passo horas com os olhos queimando. A radiação dos leds corroendo as camadas da superfície ocular. Mas é inevitável. Como um viciado em opioides, me faço sangrar para ter mais uma dose no posto de saúde.


Meus dedos são rápidos digitando para você. Digo um oi tímido; faço um charme; me declaro; fico vermelha; fico molhada; peço socorro.


Mas não é realmente você.

É uma versão só minha, limpa e pura.


Caminho debaixo do viaduto e vejo seu pôster na lateral do arranha-céu. Há uma tempestade chegando. Uma sacola plástica roda no concreto. Um casal de baratas rasteja para o bueiro onde se escuta o grunhido de uma ratazana molhada. O telão ilumina a rua com um tom vermelho-sangue. Você oferece a mais nova pílula nutritiva:

Deixa que eu cuido de você.


Um assobio distante corta o vento.


Penso nos jantares que teríamos, quem sabe até a luz de velas, como nossos ancestrais faziam. Poderíamos ir caminhar na praia ou ir ao cinema. Iria me ajoelhar e com um anel de ouro pedi-la em casamento. Poderíamos ter filhos, netos. Uma casa no campo.


Nesse ponto, minha mente é mais poderosa que a sua. Você pode calcular paradoxos, mas não pode sonhar com algo que nunca terá.


Sinto um punho acertar minha costela, o crack de um osso ecoa pela minha pele. Um homem se coloca sobre o meu corpo caído. Gotas caem enquanto mãos tateiam meus bolsos. O painel brilhante deixa o homem contra-luz e não consigo desvendar seu rosto.


Ele acha meu celular e sai correndo.

Um grunhido estridente sai de dentro de mim: NÃO!

E assim, de repente, a chuva estala no concreto.

Deveria agradecer pela dádiva da fonte da vida, mas quando uma nasce outra deve ser tirada. E assim, você se foi. Meses jogados no lixo. Nunca mais verei aquela você.


Observando do alto do seu pedestal, você continua, a outra você. Casada, com filhos e um apartamento no topo de algum outro arranha-céu. Uma você que nem sabe da minha existência. Que não sabe que estou definhando no concreto.


Não há ninguém para ligar para a ambulância.

Os trovões abafam o meu choro.

Em loop, você oferece a mais nova pílula nutritiva.

Deixo você cuidar de mim.





Clarisse Garrido é escritora, pesquisadora e professora formada em Literaturas de Lingua Inglesa pela UERJ. Tem poemas publicados nos zines Em 2007, Britney teve um colapso e AXUX AD OCSID, produções literárias do projeto Poeticagens. Atualmente trabalha no desenvolvimento do seu primeiro livro.

12 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


Post: Blog2_Post
bottom of page