Aline Nobre: três poemas de desejo


© Karolina Grabowska

sinfonia


vibrações e frequências


- harpear tuas costelas costumeiramente

- conhecer tuas formas, curvas e texturas pelo tato

- dedilhar os fios emaranhados dos teus cabelos crespos

- saber da sinuosidade do lóbulo da tua orelha com a língua


e quando distante

imaginar cenários feitos pelo fio do acaso

só pra continuar te sentindo

dentro




presa


observo atenta


a desenvoltura dos teus dedos

que caminham vagarosos

no espaço invisível

que te faz chegar em mim


rompo leis da física

e devoro todos eles

à quilômetros daqui


conto até três

a presa agora sou eu


nas minhas tuas bordas

me derramo

me oferto


como cordeiro entregue

ao teu querer


não há nada que me impeça

nesse meu imaginário

de percorrer tuas veias

na saliva quente

- minha -


novamente

conto até três

e desta vez

você não me foge mais


observo atenta

os teus passos até mim


a presa agora é você




mastro


sinto

dezesseis tipos de ventos

quando ela atira

seus olhos

- profundos -

ou

qualquer

palavra-lâmina

em direção à mim


eu navegarei tranquila

por seus oceanos

como um marinheiro taitiano

que sabe do manejo

do subir e descer de velas

dos caminhos das águas

da curvatura da amura


ela

sujeito simples

determinado

me faz sentir


da brisa ao furacão

e catorze outros ventos medianos

os quais não sei dos nomes

mas que os sinto

compreensíveis

e os enumero

do um

ao dezesseis


(mania minha de deixar palavra escapar e numerar o que não pode ser medido)


no mastro - meu -

sinto com exatidão

as direções opostas

as temperaturas adversas


e navego

tranquila

sem medo de naufragar


ela tem o elemento ar na cabeça

e brinca

e atiça

e espalha

o fogo

que sou


mas sem nunca me apagar





_

Aline Silva Nobre é Cearense, Engenheira Sanitarista e Ambiental e Poeta. Desenvolve trabalhos na área de Meio Ambiente em municípios do Sertão Central Cearense. É autora do livro Mulher-Contestada (Urutau, 2021) que aborda a temática do ser mulher e amar mulheres. Publicou textos em antologias, blogs e jornais. A maior parte de suas obras foi editada de forma independente por meio de zines. Tem se aventurado nas colagens manuais e digitais e descobrindo uma forma além-palavra de se expressar. E, dizem as outras, sorri enquanto dorme.

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